Pelo menos quatro a cada dez agentes de segurança pública concordam total ou parcialmente com as pautas antidemocráticas defendidas por vândalos que depredaram as sedes dos três Poderes no último dia 8, no Distrito Federal. Para 40% dos entrevistados, o ato teve motivação “legítima e não atenta contra a democracia”. O dado foi obtido por uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que ouviu 6351 policiais militares, civis, federais, rodoviários federais, penais e guardas municipais entre os dias 24 e 27 de janeiro em todo o Brasil.
Os dados vêm à tona em meio a uma série de investigações abertas sobre as responsabilidades das forças de segurança em meio à destruição do patrimônio público de Brasília. A Corregedoria da Polícia Militar do DF vai apurar, por exemplo, se policiais fizeram a segurança privada dos vândalos que acessaram o Planalto, o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional.
A pesquisa indagou aos agentes de segurança se a depredação era condenável, mas de motivação legítima. A frase teve concordância total de 19,4% dos entrevistados, e parcial de 20,5%. Para o diretor do FBSP, Renato Sérgio de Lima, os 40% que mostram alguma aderência a atos antidemocráticos são percentual parecido com o encontrado em levantamentos do Fórum desde 2020.
A partir daí, ele relata que as forças policiais passaram a se manifestar cada vez mais favoráveis a pautas radicalizadas, num processo que é anterior à chegada de Jair Bolsonaro ao poder, mas que foi catalisado a partir de 2019.
“O que ocorreu em 8 de janeiro não pode ser interpretado como um desvio de conduta individual. Estamos diante de um problema institucional das polícias”, afirmou.Segundo a pesquisa do FBSP, 62,1% dos agentes concordam total ou parcialmente que os policiais que foram coniventes com a ação dos extremistas devem ser punidos; 17,3% discordam totalmente.
Mais da metade, 55,7% afirmam que houve omissão no policiamento, mas a grande responsabilização é política: 51,2% afirmam que a conduta da PMDF foi correta, e o problema foi exclusivamente do comando político.
Apesar disso, 58% dos entrevistados concordam com a decretação da intervenção federal na segurança foi uma solução menos traumática e pacífica para crise. A pesquisa também revela que os policiais responsabilizaram o Exército.
Para 61% dos entrevistados, houve demora da Força para desmobilizar o acampamento montado em frente ao seu Quartel-General.
Caso mostra desafio pra governo Lula
As múltiplas faces da destruição do dia 8 de janeiro revelaram uma série de problemas para o governo Lula, entre os quais se destaca a adesão das forças policiais a pautas antidemocráticas. Para além das “selfies” com vândalos, Renato Sérgio de Lima destaca que o problema é mais profundo e que não será só o fato de o discurso do atual governo ser diferente do anterior sobre o tema que irá modificar as polícias.
“Há um novo governo, que não faz discurso de ruptura institucional, mas só isso não é suficiente para que tudo se resolva. Só a mudança da fala não muda a realidade”, disse.
O grande desafio, aponta o diretor do FBSP, é fazer com que as punições prometidas pelo governo Lula a quem se omitiu diante do caos em Brasília sejam cumpridas.
“O discurso foi correto, duro. A intervenção, correta. Mas se todo mundo se acomodar, o problema com as polícias voltará a acontecer. É preciso punição, tivemos muitas greves e transgressões que não tiveram resultado algum depois”.
