Sob o sol ardente do Ceará, em uma barraca à beira-mar, garçons e cumins correm de um lado para o outro atendendo as famílias que foram à praia no fim de semana. As mesmas cenas de qualquer sábado: pais gritam ao mar para chamar os filhos, avisar que a batata chegou, garçons levam peixes fritos com baião para as mesas e, aos 8 anos, uma criança retira e limpa o que foi deixado, abrindo espaço para novos clientes.
“Uma chaga social secular”. É assim que Felipe Caetano, 23, se refere à realidade do trabalho infantil, que ele mesmo conhece intimamente. Cearense do município de Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, ele começou a trabalhar como garçom aos 8 anos, em uma barraca de praia.
Entre os 8 e os 14, também foi catador de latinhas e trabalhou com aluguel de pranchas de surf e bodyboard na praia. “Todo sábado, domingo e feriado eu estava nas barracas de praia porque eu tinha a obrigação de levar alguma coisa para dentro de casa”, relata.
Filho mais velho de uma família empobrecida, sua história com o trabalho precoce é um legado que carrega no sangue.
Sua mãe, Fabiana, também foi vítima: começou cedo como trabalhadora doméstica. Seus avós, da mesma forma, assim como boa parte das crianças da comunidade da Prainha, onde Felipe cresceu.

