Um detalhe anatômico específico passou a chamar atenção nas redes sociais e reacendeu uma discussão antiga na cardiologia: afinal, a orelha pode indicar risco de infarto? O debate envolve o chamado Sinal de Frank, caracterizado por uma prega diagonal no lóbulo da orelha, que estudos apontam estar associada a maior probabilidade de doença arterial coronariana.
A repercussão do tema levantou dúvidas entre internautas e pacientes. Mas o que, de fato, a ciência comprova sobre essa relação? O sinal é capaz de prever um infarto ou funciona apenas como um possível indicativo de risco que precisa ser analisado dentro de um contexto clínico mais amplo?
O que é o Sinal de Frank
O Sinal de Frank foi descrito em 1973 pelo médico americano Sanders T. Frank em artigo publicado no The New England Journal of Medicine. Ele consiste em um vinco que atravessa diagonalmente o lóbulo da orelha, geralmente do trago até a borda externa inferior.
A hipótese levantada pelo cardiologista era de que alterações microvasculares e degeneração das fibras elásticas presentes no lóbulo poderiam refletir processos semelhantes nas artérias coronárias, como a aterosclerose — principal causa de infarto.
Orelha pode prever infarto?
A resposta curta é: não de forma definitiva.
Estudos ao longo das últimas décadas encontraram associação estatística entre a presença do Sinal de Frank e maior risco de doença arterial coronariana (DAC). No entanto, essa correlação não significa diagnóstico.
Uma revisão sistemática publicada no Journal of Clinical Medicine, da editora MDPI, mostrou que a sensibilidade do sinal varia de 26% a 90%, e a especificidade de 32% a 96% — índices considerados muito heterogêneos para que ele seja utilizado como ferramenta diagnóstica isolada.
Ou seja:
- Ter a prega não confirma obstrução nas artérias.
- Não ter a prega não garante que o coração esteja saudável.
O que dizem os especialistas no Brasil
A Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo reforça que o Sinal de Frank deve ser visto como um marcador de risco clínico, e não como diagnóstico.
Segundo a entidade, o achado pode ter maior relevância em pessoas com menos de 60 anos. Em idosos, a prega pode estar relacionada apenas ao envelhecimento natural da pele e à perda de colágeno.
Um estudo recente conduzido pela Faculdade de Medicina do ABC, com 656 idosos, apontou que em populações muito idosas a presença do vinco está mais associada à senescência do que diretamente a eventos cardíacos como o infarto.
Existe protocolo oficial?
Até o momento, não há diretrizes do Ministério da Saúde ou da Organização Mundial da Saúde que incluam o Sinal de Frank como critério obrigatório de rastreio cardiovascular.
Ele é considerado um achado semiológico de interesse, que pode levar o médico a investigar fatores de risco clássicos, como:
- Hipertensão
- Diabetes
- Colesterol elevado
- Tabagismo
- Histórico familiar
Por que o tema viralizou?
A ideia de que o corpo pode “avisar” sobre um infarto por meio de um sinal visível chama atenção nas redes sociais. No entanto, especialistas alertam para o risco de simplificações excessivas.
Infarto é uma condição multifatorial. Exames como eletrocardiograma, teste ergométrico, ecocardiograma, escore de cálcio e angiotomografia são ferramentas muito mais precisas para avaliar risco cardiovascular.
A orelha não prevê infarto de forma direta. O Sinal de Frank pode estar associado estatisticamente a maior risco de doença arterial coronariana, mas não substitui exames clínicos nem fecha diagnóstico.
Na prática, ele funciona como um possível alerta visual que deve ser interpretado dentro de um contexto clínico mais amplo — e sempre com avaliação médica.

