Sônia Fátima Moura, mãe de Eliza Samúdio, e Maria do Carmo dos Santos, madrinha de Bruninho Sumudio, divulgaram na manhã desta terça-feira (17), uma carta na qual exigem providências imediatas para a captura do ex-goleiro Bruno Fernandes. O atleta, condenado pelo assassinato de Eliza, é considerado foragido pela Justiça do Rio de Janeiro.
O que diz a carta
Na carta divulgada pelo G1, a família solicita que a Vara de Execução Penal (VEP) apure detalhadamente as atividades do condenado nos últimos anos, incluindo viagens interestaduais que teriam sido realizadas sem autorização judicial, e pede uma atuação mais incisiva do Ministério Público diante das violações da Lei de Execução Penal.
A família da vítima expressa profunda indignação com o que classificam como leniência do Estado brasileiro. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro confirmou que a condição de foragido de Bruno decorre do descumprimento de regras essenciais para a manutenção de seu livramento condicional. Com as faltas acumuladas, a VEP revogou o benefício e emitiu um novo mandado de prisão, que permanece em aberto enquanto a defesa tenta reverter a decisão.
Histórico de irregularidades
Ainda na carta, a família de Eliza relatam que o ex-jogador ignorou as determinações da Justiça há um longo período. De acordo com as informações apresentadas, desde o ano de 2023 Bruno não era localizado para cumprir obrigações básicas, como a atualização de seu endereço residencial e a assinatura de documentos obrigatórios no fórum.
Bruno está foragido
Diante do não comparecimento de Bruno para o retorno ao regime semiaberto, o Disque Denúncia já iniciou a propagação de alertas solicitando informações que levem ao seu paradeiro.
O mandado de prisão do jogador foi expedido oficialmente no dia 5 de março, após a conclusão de que as condições da liberdade condicional foram integralmente desrespeitadas.
Leia a carta na íntegra:
“CARTA ABERTA ÀS AUTORIDADES
Excelentíssimas Autoridades dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário,
À sociedade brasileira,
À imprensa
Nós, Sônia Fátima Moura, mãe de Eliza Samudio e Maria do Carmo dos Santos, madrinha de seu filho Bruninho, dirigimos-nos a Vossas Excelências e ao povo brasileiro com o coração pesaroso, mas ainda firme na luta por justiça.
Escrevemos esta carta em um momento em que a dor, a angústia e a indignação parecem ter se naturalizado em nossas vidas.
Escrevemos porque o silêncio não é uma opção.
Escrevemos porque o sistema judiciário, que deveria proteger e garantir o cumprimento das leis, tem falhado reiteradamente conosco – e, por extensão, com toda a sociedade.O CASO
Bruno Fernandes, condenado em 2013 a mais de 20 anos de prisão pelos crimes de feminicídio, sequestro, cárcere privado e ocultação de cadáver contra Eliza Samudio, encontra-se foragido. Apesar de decisão judicial que determinou sua prisão, ele segue em liberdade – uma liberdade que, como provam os fatos, nunca lhe foi totalmente cerceada.
Desde 2023, Bruno não era localizado para assinar o Termo de Compromisso do Livramento Condicional. A Vara de Execução Penal levou três anos para tomar qualquer providência.
Enquanto isso, além de ir assistir ao jogo no Maracanã a noite como se livre fosse, ele viajava livremente: para o Espírito Santo (01), para Minas Gerais (08) e para o Acre (01) – sempre com a complacência de um sistema que parece incapaz de monitorar quem deveria estar sob regime semiaberto.
DEBOCHE À JUSTIÇA
No dia 15 de fevereiro de 2026, apenas cinco dias após oficializar sua progressão de regime, Bruno viajou sem autorização judicial para o estado do Acre, onde participou de uma partida de futebol pelo time Vasco-AC, no Campeonato Brasileiro. Acompanhada e divulgada nas redes sociais não apenas pela indignação da contratação do Goleiro Bruno, mas também pela afronta de uma homenagem a jogadores presos sob suspeita de estupro coletivo.
A cena é estarrecedora: enquanto um feminicida condenado desfila impune, a mãe de sua vítima nunca pôde enterrar a filha, e o filho órfão nunca teve acesso aos restos mortais da própria mãe.
A AFRONTA ÀS VÍTIMAS
Enquanto Bruno desfruta de privilégios incompatíveis com sua condição de apenado, nós, familiares de Eliza, somos sistematicamente atacados. Somos cobrados, silenciados, invisibilizados. Enquanto ele recebe autógrafos e holofotes, nós seguimos tentando sobreviver ao luto sem corpo, à dor sem reparação, à ausência sem justiça.
Bruno recusou-se por duas vezes a realizar exame de DNA, negando a paternidade por anos. Pagou pensão apenas uma vez, – 2 anos acumulados — o suficiente para evitar a prisão.
Há quase quatro anos, não contribui com um centavo para a criação do próprio filho. E, ainda assim, o Estado não o notificou? Não o localizou? Não agiu? Como um apenado não é encontrado pela justiça se é obrigado ter seu endereço atualizado?
A PERGUNTA QUE NÃO SE CALA
Quantas mulheres precisarão morrer ou serem espancadas, mutiladas para que o sistema judiciário leve a sério o cumprimento das penas de criminosos e feminicidas?
Quantas famílias precisarão clamar por justiça para que a Vara de Execução Penal cumpra seu papel com eficiência, eficácia e efetividade?
Quantos Brunos Fernandes precisarão rir da lei, em praça pública, para que o judiciário reaja com a devida gravidade?
NOSSO PEDIDO
Não pedimos vingança. Pedimos justiça.
Pedimos o cumprimento integral da lei. Pedimos que a Vara de Execução Penal investigue todas as viagens não autorizadas realizadas por Bruno Fernandes nos últimos anos. Pedimos que o Ministério Público atue com rigor diante do descumprimento reiterado das exigências da Lei de Execução Penal. Pedimos que o Poder Judiciário e a Vara de Execução Penal garanta que a pena imposta seja, de fato, cumprida.
Pedimos, ainda, que Bruno Fernandes seja responsabilizado criminalmente pela fuga e por cada violação cometida. E pedimos que o Estado brasileiro reconheça que, ao tratar um feminicida com tamanha leniência, envia uma mensagem perigosa à sociedade: a de que o crime compensa, a de que a vida de mulheres como Eliza não vale nada.
NOSSO COMPROMISSO
Seguiremos firmes. Seguiremos denunciando.Seguiremos ocupando o lugar que nos foi negado: o de vítimas que exigem respeito, que exigem justiça, que exigem memória.Não nos calaremos. Não desistiremos. E enquanto houver fôlego, lutaremos para que o nome de Eliza Samudio não seja apenas lembrado como mais uma vítima, mas como símbolo da luta por um país onde feminicidas não sejam tratados como celebridades.
Atenciosamente,
Sônia Fatima Moura
Mãe de Eliza Samudio, Ativista de Direitos Humanos
Maria do Carmo dos Santos
Madrinha de Bruninho, Ativista de Direitos Humanos e Presidente do Vítimas Unidas
Brasil, 16 de março de 2026″.

