O governo federal lançou nesta semana uma nova fase do programa Desenrola, buscando oferecer descontos de até 90% em dívidas antigas e prazos estendidos para milhões de brasileiros inadimplentes.
Especialistas ouvidos pela reportagem do Diário do Nordeste dizem que a nova edição do programa não resolve o problema estrutural de endividamento da população e não combate as raízes da inadimplência recorrente.

Para o conselheiro do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon-CE), Davi Azim, a iniciativa atua apenas na superfície da crise financeira das famílias.
“Como economista, a segunda versão do programa Desenrola não chega a ser uma surpresa, ela é, na verdade, um sintoma claro de que o problema do endividamento no Brasil é estrutural e segue longe de uma solução definitiva”.
A economista e colunista do Diário do Nordeste, Ana Alves, destaca que a primeira versão do programa, embora tenha tido pontos positivos, deixou de lado questões fundamentais para a estabilidade financeira das famílias.
“O primeiro Desenrola teve mérito ao facilitar renegociações e retirar muitas pessoas dos cadastros de inadimplência, mas ele não atacou integralmente as causas estruturais do endividamento: renda apertada, juros elevados, uso recorrente do cartão de crédito e baixa reserva financeira”.
A reincidência no endividamento é explicada pela desconexão entre os indicadores macroeconômicos e a realidade do orçamento doméstico.
Pedro Rafael Fernandes, também conselheiro do Corecon-CE, avalia que o programa é um remédio para o sintoma, mas não para a “doença” econômica do país.
“O Desenrola 2.0 assim como o primeiro é uma solução paliativa, e como tal, alivia o sintoma (perda de consumo por endividamento), mas não cura a causa da doença, que é um mix de descontrole fiscal e estagnação econômica”.Pedro Rafael Fernandes
Conselheiro Corecon-CE
O DESCOMPASSO ENTRE EMPREGO E RENDA REAL
A dificuldade do brasileiro em manter as contas em dia persiste, segundo Fernandes, porque o mercado de trabalho, apesar de aquecido, tem gerado ocupações com remunerações limitadas.
O conselheiro do Corecon aponta que a criação de vagas tem se concentrado na base da pirâmide salarial, o que impede a ascensão econômica e a criação de uma reserva financeira.
“Se tomarmos os três primeiros anos do governo Lula III (2023, 2024 e 2025) e olharmos para o saldo de empregos formais no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, vamos perceber que só houve criação líquida de vagas formais para posições com 1 e 2 salários mínimos”, diz.
Essa realidade de baixa renda é agravada por um custo de vida que pressiona itens essenciais de forma desproporcional.
Ana Alves ressalta que estar empregado não garante, por si só, que o cidadão conseguirá evitar novas dívidas diante de despesas básicas elevadas.
“A dificuldade em ter uma vida financeira saudável, ainda que a economia atual demonstre indicadores satisfatórios é, principalmente, porque emprego não significa, automaticamente, equilíbrio financeiro”, pondera.
A gestão doméstica torna-se um desafio constante, especialmente em regiões onde a oscilação de preços de alimentos básicos é frequente.
Davi Azim exemplifica como fatores locais e a inflação de itens de primeira necessidade tornam o orçamento familiar extremamente vulnerável.
No Ceará, por exemplo, itens como batata, tomate, leite e feijão sofrem oscilações frequentes de preço, tornando a gestão doméstica uma verdadeira missão impossível”.Davi Azim
Conselheiro Corecon-CE
PESO DOS JUROS E DESEQUILÍBRIO FISCAL
Outro entrave estrutural identificado pelos especialistas é o custo proibitivo do crédito no Brasil, especialmente no rotativo do cartão de crédito.
O cartão deixou de ser apenas um meio de pagamento para se tornar uma ferramenta de sobrevivência, o que multiplica o problema do endividamento devido aos altos juros.
“Isso mostra que o cartão deixou de ser apenas meio de pagamento e passou a funcionar, para muitos brasileiros, como extensão da renda”, ressalta Ana Alves.
Para Pedro Fernandes, esse cenário de juros altos está diretamente ligado à falta de disciplina fiscal do governo federal, que mantém a taxa Selic elevada para conter a inflação gerada pelo excesso de gastos.
Ele defende que uma solução definitiva passaria obrigatoriamente por uma gestão pública mais responsável.
“Um forte avanço seria o governo federal tomar medidas criáveis e consistentes na direção do equilíbrio fiscal. Pois isto aliviaria a pressão fiscal sobre a inflação, permitindo que o Bacen (Banco Central) diminuísse a dose da Selic”, pondera.
NECESSIDADE DE REFORMAS PROFUNDAS
A recente explosão das plataformas de apostas, as “bets”, trouxe um complicador adicional, criando um ciclo de endividamento compulsivo em busca de ganhos rápidos.
Ana Alves alerta que essa tendência drena parte da renda que deveria ser destinada ao sustento familiar ou ao pagamento de dívidas.
“Muitas pessoas entram apostando pouco, mas, quando perdem, tentam recuperar o prejuízo com novas apostas. Isso cria um ciclo semelhante ao endividamento compulsivo: perde, aposta mais, contrai dívida, usa crédito e compromete a renda futura”, explica.
Contudo, os especialistas advertem que focar exclusivamente nas apostas pode ocultar as falhas estruturais da política econômica. Azim argumenta que o impacto das “bets” é pontual e não explica o fenômeno macro do endividamento brasileiro.
“Transferir para as bets a responsabilidade central pelo endividamento é desviar o foco do verdadeiro problema: o alto custo da economia brasileira”.
Ao final, a conclusão é de que sem reformas que aumentem a produtividade e garantam o equilíbrio das contas públicas, programas como o Desenrola continuarão sendo apenas paliativos.
Azim reforça que a dívida se tornou um elemento intrínseco à vida da população devido às falhas sistêmicas.
“Sem um redirecionamento claro da política econômica e da gestão pública, o endividamento seguirá sendo não uma exceção, mas uma regra no cotidiano das famílias brasileiras”, sentencia.
