Com um crescimento urbano acelerado nos últimos anos, o município de Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza, Ceará, inicia o processo de reorganização dos espaços públicos com foco em oferecer mais acessibilidade, possibilidade de locomoção por modais ativos e na reestruturação da mobilidade urbana.
Em 2025, a cidade fechou o ano entre os municípios cearenses que apresentam urbanização superior a 90%, conforme o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE). Com a quarta maior densidade demográfica do Estado, Eusébio já apresenta problemas de mobilidade urbana como longos engarrafamentos, conflitos, sinistros de trânsito e ausência de calçadas.
Na última terça-feira (26), a Prefeitura lançou o programa de ações sustentáveis e planejadas com objetivo de implantar soluções para o trânsito, transporte público, arborização e segurança viária. O documento “Eusébio em Movimento” reúne estudos técnicos, dados estatísticos e incentivo à participação popular.
Entre as novidades propostas estão: sistema de bicicletas e patinetes elétricos compartilhados, arborização de ciclovias e padronização de calçadas. Segundo o secretário de Infraestrutura do município, Samuel Dias, as ações deverão ser implementadas ainda este ano dentro da reurbanização do centro de Eusébio.
Já outras iniciativas como a implementação de um aplicativo de ônibus, reestruturação das linhas e melhorias do ponto de parada deverão acontecer apenas em 2027, uma vez que exigem estudo mais aprofundados e fontes de financiamento, explica o secretário.
O programa surge em um contexto de expansão acelerada da cidade metropolitana, que tem ganhando habitantes principalmente das classes A e B e se tornado uma espécie de ‘subúrbio americano’. Entre os Censos de 2010 e 2022, Eusébio registrou a 2ª maior taxa de crescimento geométrico da população (4,06% ao ano).
82.016 PESSOAS
é a população estimada da cidade metropolitana em 2025, conforme o IBGE.
“Quando as cidades crescem, as pessoas começam a ocupar os espaços e isso faz com que elas precisem se deslocar. Assim, a mobilidade começa a aparecer como um ponto importante […] A ideia é se adiantar a essas questões e criar uma política pública de mobilidade para Eusébio”, afirma Dias.
ESTRATÉGIAS INICIAIS
Conforme a gestão, uma das primeiras intervenções será a urbanização e requalificação do Centro do Eusébio, com foco na avenida principal Eusébio de Queiroz. A ideia é que a via central receba, por exemplo, ciclovias arborizadas, faixas de pedestres e padronização de calçadas ainda em 2026.
Vias adjacentes da avenida, como a Rua Irmã Ambrosina e a Rua Santa Adélia, também receberão intervenções para melhorar o fluxo e a convivência urbana.

Além disso, algumas regiões mais periféricas da cidade serão contempladascom intervenções, como a Mangabeira, Santo Antônio e Jabuti. Para o geógrafo, professor da Universidade Federal do Ceará e membro da Rede Observatório das Metrópoles, Alexandre Queiroz, olhar para essas comunidades é fundamental porque elas já existiam antes da chegada e expansão dos grandes condomínios.
O pesquisador acredita que essas localidades também cresceram com a expansão da cidade, haja vista que há mais ofertas de empregos com a abertura de serviços essenciais para “conta dessa população que chega”. Por isso, as pessoas se movimentam mais na cidade e precisam ser atendidas por um plano de mobilidade completo.
Ainda para este ano, está previsto também o projeto “Eusébio Caminhável”, que visa construir e requalificar aproximadamente 25 quilômetros de calçadas em diversos bairros da cidade. Esses pontos foram escolhidos a partir da identificação de sinais críticos como ausência de passeios, conflitos entre pedestres e veículos e baixa acessibilidade.
A terceira atuação recente será o projeto “Entorno Escolar Seguro”, voltado à melhoria das áreas próximas às unidades de ensino. O intuito é trazer mais segurança à população que percorre esses espaços, como estudantes, pais e profissionais da educação.

Ao todo, o programa municipal possui ações estratégicas de estratégia de curto, médio e longo prazo, sendo dividida em seis eixos:
- Parcerias e Prospecções, focado na captação de recursos;
- Desenho urbano e engenharia de tráfego em pontos críticos, que busca encontrar áreas problemáticas e elaborar resoluções;
- Mobilidade Ativa e Micromobilidade urbana, para incentivar formas de locomoção sustentáveis;
- Transporte público, que foca na reestruturação das linhas e das paradas;
- Plano de Mobilidade urbana do município de Eusébio, estabelece uma base de dados para decisões futuras;
- Proposições e recomendações, que trata da estruturação da governança do programa.
Os habitantes também poderão participar da construção do plano com sugestões e opiniões em um formulário online, disponível neste link. Segundo a gestão, a proposta do programa é unir a experiência dos cidadãos ao conhecimento técnico para “construir soluções mais eficientes e alinhadas à realidade local”.
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SINAIS DE SATURAÇÃO DA MOBILIDADE

A principal via de acesso da cidade, a CE-040, também concentra problemas de congestionamentos, avanço de estacionamento na pista, má qualidade da ciclovia, ausência de calçadas e pontos de conflito de tráfego.
Por ser uma rodovia estadual e que envolve outros municípios da região, é preciso ter “uma integração muito grande com os órgãos estaduais e federais”, afirma Samuel Dias. Ele exemplifica que a duplicação do trecho conhecido como Estrada do Fio, que passa por Fortaleza, Eusébio e Aquiraz, é uma das questões estudadas pelo programa.
“Queremos estar à altura de poder dar as sugestões para esse projeto [de duplicação] que interessam ao município. Como é que essa via duplicada, por exemplo, se integra na nossa malha viária, com o nosso sistema de transporte público gratuito?”, sugere.
Alexandre Queiroz Pereira explica que a cidade possui um “tecido urbano disperso e fragmentado”.
Ou seja, não é uma cidade contínua e bem conectada devido aos condomínios fechados que separam os bairros e formam um espaço urbano pouco integrado.
“A ocupação vem sendo feita a partir desses eixos de expansão nas rodovias, mas ocupando grandes glebras [áreas extensas ainda não divididas] e, às vezes, não conectando o sistema viário às vias públicas”, explica.
Além disso, esse modelo de ocupação irrigado por rodovias torna o automóvel um mecanismo predominante e diminui o estímulo a modais ativos, uma vez que a cidade é espalhada.
PARCERIAS PARA INVESTIMENTOS
Segundo a Prefeitura, as equipes técnicas envolvidas estão há cerca de um mês em campo, fazendo levantamentos e diagnóstico na cidade. O programa está sendo elaborado em parceria com o Instituto de Políticas Públicas para Cidades (IPP-C), organização especializada na área de segurança viária, mobilidade e gestão pública.
Eles disponibilizam, explica Dias, profissionais e metodologias para que os funcionários da gestão sejam treinados e capacitados. Além disso, os eusebienses também poderão participar diretamente, por meio de um formulário online, enviando sugestões, opiniões e relatos.

A iniciativa visa estimular uma mudança cultural dos habitantes, projeto Samuel. O secretário lembra da política pública cicloviária de Fortaleza, que surgiu nos últimos 10 anos, e “mudou a forma como as pessoas andam de bicicleta na cidade, como é a cara das ruas”.
“Não existia ciclovias praticamente, passou a ter ciclofaixas também. As pessoas entenderam que a bicicleta é um transporte e não só uma recreação”, explica. Ele detalha que os estudos prévios já indicam que existe demanda por esses modais ativos, mas que os dados serão consolidados no plano de mobilidade urbana, previsto no 5º eixo do programa.

