Por trás de cada aplicativo de celular, telas, botões e comandos são organizados por designers e desenvolvedores a partir do comportamento esperado do usuário e de quais necessidades devem ser priorizadas. Quando essas decisões partem de premissas limitadas sobre gênero, o resultado é uma tecnologia que reproduz desigualdades da vida real.
Usar tons de rosa em plataformas destinadas à mulheres e utilizar nomes e vozes femininas para assistentes virtuais, por exemplo, são escolhas que aparentam ser técnicas, mas replicam estereótipos da sociedade no mundo digital. Para quebrar esse ciclo de preconceitos, pesquisadoras da Universidade Federal do Ceará (UFC)desenvolveram um guia prático para orientar designers, desenvolvedores e outros profissionais da área.
Elas identificaram uma lacuna nas pesquisas sobre desigualdade de gênero e plataformas digitais: a literatura científica acumulava diversos diagnósticos sobre vieses algorítmicos, mas não existiam ferramentas práticas para o mercado. Surge então o Guia de Diretrizes para Design de Interface com Foco em IHC Feminista, disponível em português e inglês.
A partir de uma revisão sistemática, a equipe selecionou cinco estudos centrais e sintetizou 15 diretrizes práticaspara acompanhar as decisões a serem tomadas ao longo de todo o desenvolvimento de um produto digital.
O documento sugere que sejam realizados testes de usabilidade com usuários de diferentes identidades de gênero para garantir sistemas e abordagem neutras, oferta de treinamento contínuos sobre gênero e inclusão, criação de canais de feedback com os usuários e implementação de revisões constantes para corrigir viés de gênero.
Anna Beatriz Marques, professora dos cursos de Engenharia de Software e Ciência da Computação da UFC e coordenadora do projeto, explica que o material surgiu das experiências nas elaborações de softwares dentro da própria Universidade e das vivências enquanto mulher na computação.
“O Guia tenta desconstruir esses estereótipos e evitar que a gente reproduza nas nossas aplicações. Não identificamos um conjunto de diretrizes que diga exatamente o que fazer, mas que sugira ações como incluir pessoas com perfis diversos na avaliação e atenção da tecnologia para descobrir qual a melhor forma de atender esse público”, destaca.
O fato de parte das equipes de desenvolvimento de software serem formadas majoritariamente por homens ou possuírem somente uma mulher no time resulta em projetos pensados para um público genérico. “Os softwares são desenvolvidos por pessoas e o que é projetado numa interface leva em consideração o que essas pessoas acreditam que representa o público-alvo”, afirma.

Legenda: Anna Beatriz e Valéria são professoras do Campus de Russas da UFC, com foco na Computação e Engenharia.
Foto: Victor Braga/UFC
COMO O APP FOI DESENVOLVIDO
Uma das bases teóricas para a produção do documento é a Interação Humano-Computador (IHC), campo que estuda as interações entre sistemas computacionais e seres humanos. Sua vertente ligada ao feminismo, a IHC Feminista, começou a ser teorizada pela pesquisadora taiwanesa-americana Shaowen Bardzell em 2010, na Universidade de Indiana (EUA).
Partindo desse estudo, foi possível demonstrar que determinadas tecnologias reproduzem desigualdades de gênero e que não existiam instrumentos norteadores que sistematizasse as recomendações que apareciam de forma dispersa nas pesquisas.
Conforme o Guia, a IHC Feminista busca desnaturalizar as normas de gênero e promover uma “abordagem inclusiva e empoderadora no design de tecnologias”. São considerados seis critérios de qualidade de design de interação:
- Pluralismo: incluir pessoas com diferentes habilidades, etnias e experiências para promover diversidade;
- Participação: valorizar processos colaborativos para criação e avaliação de protótipos;
- Ativismo: buscar soluções de design que pratiquem o empoderamento;
- Ecologia: determinar o significado de determinado artefato;
- Corporificação: focar nas emoções do usuário;
- Posicionamento: conscientizar os usuários em relação ao funcionamento do sistema e suas causas.
O Guia de Diretrizes para Design de Interface com Foco em IHC Feminista é resultado da pesquisa desenvolvida pelas estudantes Geslâne Rodrigues de Sena, Kellen Raizy Noronha Monteiro e Maria Isabele de Oliveira Freires, com orientação das professoras Valéria Maria da Silva Pinheiro e Anna Beatriz Marques.
As pesquisadoras envolvidas são dos cursos de Engenharia de Software ou de Ciência da Computação do Campus da UFC em Russas e integrantes do projeto de extensão Meninas Digitais do Vale, dedicado a fortalecer a participação de mulheres na área da tecnologia.
.webp?q=0.8&$p$q=817a582)
Legenda: Projeto Meninas Digitais do Vale estimula a participação de meninas e mulheres na área da Tecnologia da Informação (TI).
Foto: Davi Rocha/SVM.
ACEITAÇÃO NO MERCADO E AMBIÇÕES FUTURAS
Um teste anonimizado foi realizado com 13 profissionais da área para avaliar o Guia e o resultado foi positivo pela organização, utilidade e facilidade de uso, além de favoráveis ao uso do material para a criação de interfaces mais acessíveis e inclusivas.
Antes do documento, os participantes haviam afirmado que não tinham conhecimento aprofundado sobre IHC feminista ou a havia aplicado em projetos e apenas um já tinha lido ou estudado sobre o assunto.
Apesar do acolhimento positivo, as pesquisadoras reconhecem os desafios de introduzir o tema no mercado corporativo. O ambiente comercial opera com prazos curtos e prioridades voltadas ao lucro, enquanto reflexões sobre gênero exigem escuta interdisciplinar.
No entanto, elas ressaltam que incluir as diretrizes desde a concepção do projeto custa significativamente menos do que tentar reescrever um sistema excludente que já está em produção.
A partir de agora, as pesquisadoras pretendem acompanhar a aplicação do guia do início ao fim em projetos de software reais — desde o levantamento de requisitos até a avaliação de interface. O objetivo é medir o impacto direto na redução de vieses e no engajamento dos usuários.
Anna Beatriz conta que o Guia já é aplicado em softwares em desenvolvimento dentro da Universidade. “É um sistema que já tem uma versão desenvolvida, mas que iremos agora analisar se as diretrizes podem ser aplicadas nesse estágio do projeto. Com isso, vamos ter novas evidências do uso do Guia”, diz.

