DESINFORMAÇÃO | Mais de seis anos após o início da pandemia, bolsonaristas voltaram a divulgar narrativas falsas sobre a Covid usando documentos de Anthony Fauci, médico que liderou a resposta dos Estados Unidos à crise sanitária. O debate ganhou força após uma audiência no Senado dos EUA em que Anthony Fauci foi questionado por aliados de Trump sobre a origem do coronavírus e decisões da pandemia, decidindo permanecer em silêncio, com base em direitos garantidos pela constituição americana.
As críticas também foram impulsionadas por figuras como Robert F. Kennedy Jr., atual secretário de Saúde dos Estados Unidos, que defende alegações rejeitadas pela ciência, como a falsa alegação de que vacinas causariam autismo.
No Brasil, as alegações são compartilhadas por Nikolas Ferreira (PL-MG), Eduardo Bolsonaro e Júlia Zanatta (PL-SC), que já chegou a ser cotada como vice de Flávio Bolsonaro.
Nikolas afirmou que os chamados “diários de Fauci” revelariam que o médico teria mentido sobre a pandemia, escondido informações sobre vacinas e mudado posições por interesses políticos.
As acusações, porém, distorcem os registros. O deputado afirmou, por exemplo, aque Fauci teria escondido um problema pulmonar causado pela vacina contra a Covid. Não há comprovação pública dessa relação.
O deputado também disse que os documentos mostrariam que Fauci considerava a hidroxicloroquina segura e mudou de posição após Donald Trump defender o medicamento.
Os registros mostram o contrário. Fauci demonstrou preocupação com a falta de evidências científicas robustas e registrou que os primeiros relatos sobre a hidroxicloroquina eram baseados em “estudos não controlados”.
Com o avanço das pesquisas, estudos clínicos maiores não encontraram benefício do medicamento na redução de mortes ou casos graves, e a Organização Mundial da Saúde passou a recomendar contra seu uso no tratamento da Covid.
Nikolas ainda questionou se pesquisas de vacinas teriam usado “partes de bebês abortados”. Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), as vacinas contra a Covid não contêm tecidos fetais.
A retomada dessas narrativas ocorre enquanto aliados de Flávio Bolsonaro recuperam um tema que desgastou Jair Bolsonaro durante a pandemia. O ex-presidente chamou a Covid de “gripezinha”, afirmou que não era “coveiro” diante das mortes e criticou medidas de proteção.
A condução da pandemia teve impacto na eleição de 2022. Pesquisas realizadas durante o período eleitoral apontaram que a gestão da crise sanitária era um dos temas associados à rejeição de Jair Bolsonaro entre parte dos eleitores, especialmente aqueles que não se identificavam com nenhum dos polos políticos.
Ao resgatar esse debate, aliados de Flávio podem reabrir uma pauta que afasta eleitores moderados, decisivos em disputas acirradas.
Fontes: documentos do Senado dos Estados Unidos; Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC); Organização Mundial da Saúde (OMS); NIH e estudos científicos revisados por pares.

