Desde que a Copa do Mundo começou neste 2026 sobressaltam em minha memória momentos vividos ao longo da Copa de 1994, quando eu ainda era uma criança, torcendo, sofrendo, amando e chorando a cada jogo, ao lado de jovens e adultos eufóricos. Primos, irmãos, amigos, pais, tios, avós, vizinhos. Uma família gigante entre calçadas.
Ver o Brasil ser eliminado do Mundial deste ano no país onde foi tetracampeão em 1994, os EUA, reacende marcos que seguem vivos na memória. Naquela época, sem redes sociais digitais, e outras tantas tecnologias, era mais fácil ver os jogadores da seleção brasileira como heróis – e os adversários como vilões -, decorar seus nomes, seus passes, e também se irritar em pleno desespero.
Passei a pensar, nas últimas semanas, que o ano de 1994 teve uma espécie de “Copa do Mundo Raiz” pra nós, brasileiros. E o que seria isso? Uma Copa movida a choro, gritos, risos, desesperos, tudo junto e ao mesmo tempo. E vitória, claro, a cada fim de jogo. Alívio por poucos dias. Ansiedade sobre o porvir. Por aqui, nada de comentários técnicos, apenas marcos da memória sobre a outra Copa que também teve jogos em estádios norte-americanos.
Essas lembranças penso que vieram talvez justificadas pelo desejo e esperança constante de sermos campeões. Sinto saudade da vitória bem vivida, bem experimentada. Quem não? E neste domingo, claro, essa sensação apertou mais forte o peito mal sossegado por baixo da camisa verde-amarela. Memórias vão, vêm, permanecem.
E por que saudade da Copa de 1994 e nem tanto da de 2002, quando fomos pentacampeões? No século passado, vivemos uma espécie de auge: os horários das partidas eram bons, com muito tempo pra festejar. Fomos a primeira seleção tetracampeã do mundo, depois de várias vitórias e apenas um empate. Sufoco e alívio em segundos. Crianças nas ruas, televisões nas calcadas, muros e vias pintados, céus verde-amarelados por bandeiras esvoaçando a cada vitória. Foram 11 gols pra celebrar. Além dos 3 de pênalti na final. Mais saudade!

No bairro onde eu morava, algumas vitórias foram comemoradas de rua em rua, a pé, de bicicleta e até de carro, no estilo buzinaço. Éramos todos craques em sentir e celebrar. Comida e bebida à vontade, hora de dormir cancelada. Todo mundo acordado até altas horas discutindo quem era melhor: Bebeto ou Romário? O goleiro Taffarel ora herói, ora vilão. Do nada um gol de um tal Márcio Santos! Parreira atento, às vezes duvidoso. Dunga no comando e Cafu entrando no jogo também estão na memória.
Depois de muitos sustos, chegou a final, mais arrepios. Zero a zero até o fim; prorrogação. “Não acredito, vai pros pênaltis”! Mais desespero. Gol perdido, gol defendido, “golaços”. Raiva e revolta. Cabeça apertando, estômago dando reviravoltas. Segundos depois, amor e admiração. Abraços, pulos. Ufa, viramos tetra! A primeira seleção do mundo campeã 4 vezes. Mais pulos, mais gritos. Que sentimento era aquele mesmo?
A final da Copa foi a verdadeira concretização do que eu entendia ser um sonho realizado. Enfim, uma geração de crianças satisfeitas. O tempo era nosso amigo, parceiro, guia. A rua era nosso abrigo. Euforia, esperança, coração acelerado. Que saudade eu tenho da vitória! É muito bom ser campeã, mas talvez melhor ainda seja ter memória!

