Neste mês de abril, é celebrado o sexto aniversário do capacete Elmo. O dispositivo, que se tornou um símbolo de inovação e união institucional, surgiu em meio ao caos dos primeiros meses da pandemia de Covid-19, como uma resposta audaciosa à escassez global de respiradores.
O médico e pesquisador Marcelo Alcântara Holanda relembra o marco inicial dessa trajetória. Foi justamente nesta semana de abril, há seis anos, que a proposta despontou, durante uma reunião estratégica convocada pela Fundação Cearense de Apoio à Pesquisa (Funcap).
“De fato, esta semana de abril foi a semana onde a ideia do Capacete Elmo foi proposta numa reunião com mais quatro instituições”, afirma Marcelo. O desenvolvimento acelerado da tecnologia só foi possível graças a uma rede de colaboração entre o setor acadêmico, governamental e industrial do Ceará.

O projeto uniu a academia, por meio da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade de Fortaleza (Unifor); a gestão e a pesquisa (Funcap e Escola de Saúde Pública (ESP-CE)); e a indústria, com a participação do Sistema Fiec, por meio do Senai Ceará.
Com quase 30 anos de experiência em ventilação mecânica, Marcelo Alcântara propôs um caminho inverso ao que o mundo seguia. Em vez de focar apenas na produção de ventiladores mecânicos (invasivos), a sugestão foi investir em um modelo não invasivo de suporte respiratório.
A proposta, embora disruptiva, foi a solução necessária para aquele momento crítico: “Eu propus, em vez de desenvolvermos um ventilador mecânico, criar uma solução diferente. Essa sugestão causou um certo espanto na época, mas foi aprovada pelas instituições e, praticamente, no dia seguinte começamos a trabalhar nessa ideia”, conclui o pesquisador.
O dispositivo ganhou destaque em um estudo publicado na revista científica internacional Chest, referência mundial em pneumologia. A pesquisa reforça o uso do equipamento como alternativa eficaz no tratamento de pacientes com insuficiência respiratória e aponta redução significativa na necessidade de intubação.
Uso em larga escala
Agora, um estudo liderado pela pesquisadora Gabriela Carvalho Gomes, da UFC, reforça essa evidência ao analisar o uso do dispositivo em larga escala.
A pesquisa contou ainda com a coordenação do professor Marcelo Alcântara, que pertence ao Departamento de Medicina Clínica da Famed, avaliando 1.685 pacientes com Covid-19 e insuficiência respiratória hipoxêmica aguda entre novembro de 2020 e novembro de 2021.
Os resultados foram publicados na revista científica ligada à American College of Chest Physicians, por meio do periódico Chest.
Entre os principais achados, 63% dos pacientes não precisaram de intubação. Já a mortalidade hospitalar foi de 24% e ocorreu quase exclusivamente entre aqueles que evoluíram para ventilação invasiva.
O estudo também identificou fatores associados ao sucesso do tratamento com o capacete. Pacientes mais jovens, com melhor oxigenação inicial e menor gravidade clínica tiveram maior chance de evitar a intubação.
Por outro lado, idade avançada, presença de comorbidades e sinais de comprometimento sistêmico, como níveis elevados de ureia, creatinina e marcadores inflamatórios, aumentam o risco de desfechos mais graves.
Como o Elmo é feito e como funciona no organismo
O capacete Elmo é um dispositivo de suporte respiratório não invasivo desenvolvido para oferecer oxigenação contínua com pressão positiva. Sua estrutura foi projetada para ser resistente, confortável ao paciente e eficiente na condução e controle do fluxo de gases, permitindo o uso prolongado em pacientes com insuficiência respiratória.
O equipamento é composto por uma cúpula transparente de PVC rígido, capaz de suportar altas pressões internas sem vazamentos. Essa estrutura se conecta a uma base rígida em formato de anel, posicionada ao redor do pescoço do paciente, e a um colar de silicone que garante vedação confortável e não irritativa à pele.
Para garantir estabilidade durante o uso, o capacete conta ainda com tiras laterais que são fixadas na região das axilas, impedindo que o dispositivo se eleve com a pressão interna do fluxo de ar.
O sistema pode incluir proteção auricular para redução de ruídos e circuitos específicos responsáveis pela entrada e saída controlada dos gases.
Da inovação ao legado: criação da Fundação Elmo
Segundo o pesquisador Marcelo Alcântara, o processo teve início a partir da articulação de um grupo envolvido com o projeto, que decidiu submeter a iniciativa ao Prêmio Eurofarma de Inovação em Saúde, promovido pela indústria farmacêutica na América Latina.
O projeto foi reconhecido na premiação como um caso de inovação em saúde, figurando entre os destaques da edição. Com a concessão do prêmio em dinheiro, os recursos foram inicialmente destinados ao pesquisador responsável, em nome de pessoa física.
Diante disso, foi tomada a decisão em grupo de destinar integralmente o valor para uma finalidade coletiva, voltada ao interesse público e à continuidade das ações relacionadas à saúde respiratória.
A partir dessa decisão, foi estruturada a Fundação Elmo: “Essa fundação é sem fins lucrativos, para benefício de ações visando a saúde respiratória por meio de quatro pilares: pesquisa, inovação, ensino e memória. Então ela tem esse escopo, essa abrangência e é um legado que veio do período e da iniciativa do Capacete”, detalha Marcelo.
Perfil dos pacientes e fatores de risco
O estudo apontou que idade mais jovem, melhor oxigenação inicial e menor gravidade clínica aumentam as chances de sucesso do tratamento. Por outro lado, idade avançada, comorbidades e alterações laboratoriais elevam o risco de desfechos mais graves.
Gabriela Gomes destaca a importância da resposta inicial ao tratamento: “Os melhores resultados foram observados em pacientes mais jovens, com menor gravidade sistêmica e melhor oxigenação no início do tratamento. Além disso, um ponto fundamental é a resposta nas primeiras horas: quando o paciente melhora rapidamente, a chance de sucesso com o capacete é significativamente maior”.
A pesquisadora reforça o papel decisivo desse momento. “Ela é decisiva. As primeiras horas funcionam como uma ‘janela de teste’ da terapia. Quando o paciente melhora logo no início, a chance de sucesso é maior”, afirma.
Para aprofundar a análise, os pesquisadores dividiram os dados em quatro grupos clínicos. Segundo Marcelo, isso permitiu maior precisão nos resultados. “Ao separarmos essas quatro categorias, conseguimos fazer uma análise muito interessante e descobrir quais variáveis interferem no resultado final”, explica.
