conflito entre Rússia e Ucrânia já movimenta os pré-candidatos à Presidência aqui no Brasil. A duração da guerra pode exigir não só uma posição mais dura do atual presidente Jair Bolsonaro (PL), que já é pressionado interna e externamente, como também ter efeito prático na economia brasileira.
Nesta quarta-feira, 2, os pré-candidatos ao Planalto Sérgio Moro (Podemos), João Doria (PSDB), Simone Tebet (MDB) e Felipe d’Avila (Novo) publicaram nas redes sociais um manifesto conjunto em apoio à Ucrânia. No documento, assinado pelos nomes que integram a chamada “terceira via”, eles pedem ao governo brasileiro “que se posicione e se una às nações que defendem a soberania” do país do leste europeu.
Além disso, com as sanções impostas à Rússia, a expectativa é de aumento nos preços de alimentos e do combustível; tema que já movimenta o debate pré-eleitoral no Brasil pela crise econômica que se impõe.
A professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe, Bárbara Motta, explica que, historicamente, política internacional e externa não são assuntos que movimentam a discussão eleitoral, no entanto, eventuais efeitos do conflito na vida do brasileiro podem colocar a pauta na ordem do dia.
“Política externa e politica internacional, a gente brinca que não dá voto. Significa que normalmente não é um tema de discussão, não é um tema de pauta. Os debates eleitorais, usualmente, ficam bem mais circunscritos a temas domésticos: economia, saúde, educação”, explica a especialista, que completa: “consequências na economia brasileira podem ser bastante prejudiciais para a popularidade da atual presidência se isso não for endereçado de alguma forma”.
Na mesma linha discorre o cientista político e professor da Universidade Federal do Ceará, Cleyton Monte. Segundo ele, a duração da guerra e os efeitos desta no bolso do brasileiro serão determinantes na projeção que o tema pode ganhar durante a campanha. “A gente já enfrenta uma crise econômica, inflação, desemprego, renda estagnada. Então, se isso chega no Brasil de forma direta, a gente pode ter possibilidade de isso render no debate”, explica.
Cleyton destaca ainda como a política externa brasileira fisgou ligeiramente o eleitorado na disputa de 2018: “é muito pouco o espaço das relações internacionais do Brasil nas eleições presidenciais. O que a gente teve em 2018, por exemplo, foi uma crítica que o Bolsonaro fez ao governo do PT sobre empréstimos do BNDES a governos ditos comunistas”. E completa: “mas não tem aprofundamento, alguma reflexão mais densa, me parece que não é um tema tão contagiante para boa parte dos brasileiros”.
De acordo como o sociólogo e cientista político Rodrigo Prando (Universidade Presbiteriana Mackenzie-SP), um eventual encarecimento no preço do combustível e de alguns alimentos pode ser explorado pela oposição, uma vez que a economia já é um dos mobilizadores do pleito deste ano.
“O brasileiro tem hoje um inflação que corrói o poder de compra, encareceu o custo de vida para todo mundo. Então, isso vai estar na pauta”, afirma.
Prando ainda alerta: “a grande questão é que 2018 não se repete em 2022. [Naquele ano], haviam condições objetivas que deram a ele [Bolsonaro] a probabilidade de um discurso que conseguiu levar ele à Presidência da República”. Segundo o especialista, os temas engajadores agora são basicamente economia e pandemia.
A professora Barbara Motta destaca também como a situação econômica tem efeito direto na popularidade presidencial. “A gente sabe que existe uma correlação entre piora da economia e perda de popularidade pela presidência em vigência”, afirma.
“Em termo práticos, o conflito pode afetar dois principais segmentos: o preço dos combustíveis e o preço do trigo. O aumento do preço do trigo pode levar ao aumento dos produtos que usam trigo como principal insumo. Então, pão, macarrão… O aumento do preço do pão pode impactar a capacidade do brasileiro de acessar esse produto e isso pode se traduzir em uma perde de popularidade do presidente Bolsonaro”, conclui.
Ponto para a oposição
O cientista político Cleyton Monte, por sua vez, finaliza afirmando que o que deve respingar do conflito na disputa ao Planalto é mais um espaço de ataque ao presidente Jair Bolsonaro, pela postura que o mandatário tem mantido sobre a invasão russa, do que necessariamente a construção de uma arena para debater o conflito.
“Vejo muito mais uma esfera de crítica do governo Bolsonaro do que propriamente um espaço de discussão entre os candidatos. Todos os pré-candidatos se manifestaram contra a invasão e o presidente Bolsonaro está naquela postura neutra. Mas ele já sinalizou um apoio tácito ao presidente Putin em vários sentidos: evitando sanções, evitando críticas mais duras”, conclui.
Recentemente, o presidente foi acusado pelo seu ex-ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, de reproduzir “desinformação russa”. Em vídeo publicado em seu canal no YouTube na terça-feira, 1°, o ex-chanceler afirma que a posição de suposta “neutralidade” defendida pelo mandatário transmite, na verdade, uma preferência pelo país de Vladimir Putin.
Até aqui, a postura do chefe do Executivo em relação ao conflito se soma à lista de desgastes e incongruências que ele acumula, como também destaca o cientista Rodrigo Prando.
“A situação do presidente é delicada. E agora, de fato, ter ido à Rússia, não ter condenado de fato a guerra. Se isso tiver impacto econômico no encarecimento de preços e se isso for comunicado pelos adversários, pela oposição ao Bolsonaro e ao bolsonarismo, é mais um elemento de desgaste”, aponta Prando.
“Sem contar o fato de ter chegado à Presidência dizendo que havia libertado o país do socialismo, que havia nos libertado da esquerda, e ir até o Vladimir Putin — a Rússia é o berço praticamente da esquerda mundial por conta da Revolução Russa de 1917 — e ter prestado homenagem aos soldados comunistas”, finaliza.

