O avanço de uma área em processo de erosão nas proximidades da CE-025, no Porto das Dunas, em Aquiraz, tem provocado preocupação entre moradores e especialistas ambientais. No local, é possível observar uma ampla faixa de solo em desgaste que se estende por cerca de 100 metros, formando uma cratera com encostas de solo arenoso expostas e sem vegetação.
Embora a comunidade e ambientalistas relacionem o problema a obras de drenagem realizadas na rodovia desde o fim de 2025, nenhum órgão estadual ou municipal atribuiu oficialmente responsabilidade direta pelas alterações no terreno e degradação da área verde.
O trecho fica ao lado da avenida Caminho do Sol, próximo ao local onde parte da rodovia cedeu no fim do último mês de abril. Na ocasião, três veículos caíram na cratera, uma pessoa morreu. A região integra a Área de Proteção Ambiental (APA) do rio Pacoti.
Segundo moradores, antes mesmo do rompimento da via no mês de abril passado, era possível observar sinais de instabilidade no terreno após escavações para instalação de tubulações.
“Começou a ceder [a terra] enquanto eles estavam trabalhando nesses buracos para passar a encanação. Viram que estava cedendo e não ajeitaram; só vieram ajeitar quando o rapaz morreu ali”, disse Francisco Jonas, 35, pedreiro e morador das proximidades da avenida Caminho do Sol.
Segundo ele, antes das intervenções o local não apresentava sinais tão visíveis de desgaste do solo. “Agora, a areia está se descendo e se acumulando até lá mais embaixo, próximo às nossas casas, isso nunca aconteceu até este ano”.
Também morador do Porto das Dunas, Ricardo Rattes relata que a comunidade vinha denunciando os perigos da erosão ao redor do trecho nos últimos meses. “A gente viu que estavam cavando para colocar os bueiros, mas aí o solo foi cedendo, cedendo, até chegar a esse ponto”, diz.
O engenheiro elétrico aposentado conta que, agora, os moradores temem que os impactos se estendam a outros trechos da rodovia e outra cratera se abra.
Ocupação de dunas e erosão retroativa explicam danos na região
O professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jeovah Meireles, aponta que, atualmente, a região da Av. Caminho do Sol está com um nível bastante elevado de impermeabilização, tanto devido à grande ocupação de residências e comércios, quanto às obras de pavimentação e drenagem na área.
“A impermeabilização do solo e a ocupação ocorrem praticamente desde o posto da praia até próximo à ponte do rio Pacoti. Antes das construções, a água infiltrava naturalmente nas dunas. Agora, sem ter para onde ir, a enxurrada corre pela superfície com muito mais volume e força”, explica.
A área afetada está inserida em um campo de dunas, ambiente naturalmente mais sensível a intervenções. Segundo ele, a situação foi agravada devido à crise climática, que causou chuvas muito mais intensas e concentradas.
“Como as chuvas serão muito mais potentes, os bueiros e as obras que foram planejados para canalizar o volume de água pluvial anterior acabaram induzindo alterações na compactação do solo”, destaca. Um dos fenômenos apontados pelo especialista para explicar o dano na faixa de terra próximo às recentes obras é o da retroerosão, que ocorre quando o fluxo de água, ao sair de estruturas de drenagem, começa a “cavar” o solo no sentido contrário.
“Em obras desse tipo, fatores como o relevo, o tipo de solo e o desmatamento exigem estruturas que reduzam a força da água, controlando a inclinação do terreno e recuperando a vegetação local para evitar erosões.
O cenário atual me faz crer que a obra não teve continuidade com um canal que levasse essa água um pouco mais distante, para que desaguasse nos sistemas lacustres [lagoas] que estão ali”, aponta.
O professor afirma, contudo, que ainda há alternativas para a recuperação do trecho que sofreu erosão.“Essas áreas devem ser ocupadas de modo a facilitar a infiltração da água no solo. Elas devem ser arborizadas, e as vias de acesso podem utilizar, hoje em dia, materiais como [piso] intertravado. A drenagem também deve ser constantemente monitorada, porque as chuvas provocam recalques mesmo nos anéis de concreto sob a via de acesso.
”Carlos Augusto Lima, ambientalista e realizador do Projeto Percursos Ecológicos, conta que o grupo notou os impactos das obras durante trilhas na região.“É uma área que abrigar dunas fixas e móveis, campo praiano, lagoas, nascentes, uma fauna riquíssima e a foz do rio Pacoti. É uma área de vegetação que presta serviços ecossistêmicos fundamentais, tanto para a região do Porto das Dunas quanto para a cidade como um todo. Isso exige delicadeza extrema diante de qualquer intervenção, já que todo impacto ambiental gera um retorno negativo”, declarou.
O que diz o Poder PúblicoEm busca de esclarecimentos, O POVO procurou a Cagece, que informou que não executa intervenções na área verde paralela ao trecho da CE-025. No local há apenas a presença de uma descarga de adutora, equipamento utilizado para o funcionamento do sistema de abastecimento.
A Prefeitura de Aquiraz também foi contatada sobre as obras na região, mas não houve retorno até o fechamento desta matéria.Por sua vez, a Superintendência de Obras Públicas (SOP) informou que as intervenções realizadas na CE-025 no início de 2026, no trecho do Porto das Dunas, correspondem a serviços de manutenção da rodovia. A pasta destacou que a via foi entregue após obras de duplicação concluídas no início de 2021.Por telefone, a SOP afirmou que as ações de manutenção seguem as licenças vigentes e não possuem relação com o processo de erosão da área. Segundo o órgão, não houve derrubada de árvores na intervenção.

