Um levantamento feito com 104 hospitais públicos e privados do Brasil trouxe um alerta preocupante, mas velho conhecido da saúde pública mundial: muitos hospitais ainda não seguem corretamente protocolos para uso seguro de antibióticos. Isso aumenta o risco de resistência antimicrobiana —quando as bactérias deixam de responder aos remédios— e pode transformar infecções simples em problemas fatais.
A pesquisa, conduzida pela Vertea, foi divulgada na quarta (20) no lançamento da campanha “Será que precisa? Evitando a resistência antimicrobiana por antibióticos e antifúngicos”, promovida pela SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) em parceria com o IQG (Instituto Qualisa de Gestão).
Por que isso é tão grave?
OMS considera o problema uma “crise silenciosa”. Resistência antimicrobiana acontece quando bactérias e outros microrganismos ficam resistentes aos medicamentos, dificultando ou até impedindo o tratamento de infecções. A organização alerta que a resistência antimicrobiana pode matar mais do que o câncer até 2050.
Resistência está ligada a mais de 4,95 milhões de mortes por ano no mundo (dados do Lancet, 2022). No Brasil, a estimativa é de 48 mil mortes anuais por infecções resistentes, podendo chegar a 1,2 milhão de óbitos até 2050 se nada for feito, de acordo com a Anvisa e o Ministério da Saúde. Relatório faz projeção de até 10 milhões de mortes por ano até 2050 se não houver uma ação coordenada (Relatório O’Neill, 2016).
Estudo avaliou 104 hospitais públicos (40% da amostra) e privados do país (60% da amostra) e encontrou falhas importantes. 20% dos hospitais que responderam à pesquisa não ajustam corretamente a dose dos antibióticos, algo essencial para evitar excesso ou ineficácia do tratamento; 87,7% ainda usam antibióticos de forma empírica, ou seja, por tentativa e erro, sem base em exames que confirmem qual bactéria está causando a infecção. O estudo tem algumas limitações, o Brasil tem mais de 7.100 hospitais, segundo dados de 2022 da Confederação Nacional de Saúde. De acordo com o instituto que conduziu o levantamento, o questionário foi enviado para mais de 300 hospitais, e a grande dificuldade é a organização e tabulação dos dados por cada instituição, o que acaba inviabilizando as respostas.
Problema também é ambiental. Nenhum hospital analisado tem protocolo para descarte adequado nem faz tratamento de efluentes hospitalares. Resíduos hospitalares sem tratamento levam restos de antibióticos para rios e solos, espalhando a resistência.
Usar antibióticos sem controle acelera a resistência bacteriana. Isso significa que infecções simples, como uma infecção urinária ou uma pneumonia, podem se tornar difíceis ou impossíveis de tratar. Em UTIs, onde os pacientes já estão mais vulneráveis, a resistência pode ser fatal.
Se continuarmos assim, em menos de 10 anos os antibióticos de primeira linha podem perder completamente a eficácia, e infecções simples voltarão a ser fatais. Isso não é previsão catastrófica —é tendência confirmada pela OMS. Trecho da pesquisa
A resistência antimicrobiana não é um desafio hospitalar, ela é uma crise de saúde pública, econômica e ambiental.Mara Machado, CEO do IQG
A pressão que o médico recebe para fazer a receita de um antibiótico é um absurdo. Se ele está com a fila de quatro horas no pronto-atendimento, vai fazer uma receita, porque ele precisa também dar andamento ao atendimento. Mas se a gente tem um teste rápido para influenza, por exemplo, isso dá segurança para o médico para ele não prescrever o antibiótico [influenza é vírus, antibiótico é para bactérias]. O diagnóstico é muito importante e a prevenção é fundamental.Ana Gales, infectologista e coordenadora do Comitê de Resistência Antimicrobiana da SBI
Como prevenir?
Uso racional: Prescrever antibióticos apenas quando realmente necessário, na dose e pelo tempo corretos.
O paciente não nasce sabendo usar antibiótico. Ele aprendeu isso em algum lugar. Nós ensinamos os pacientes a usar errado o antibiótico. Mara Machado, CEO do IQG
Monitoramento constante: Testes para identificar a bactéria antes do início do tratamento.
Protocolos ambientais: Criar regras para descarte adequado e tratamento de efluentes.
Campanhas educativas: Tanto para profissionais de saúde quanto para a população.
Cada prescrição é uma decisão que impacta o paciente, o hospital e o planeta. Não basta tratar a infecção de hoje, é preciso preservar a eficácia para amanhã. Trecho da pesquisa
A perspectiva hoje que a OMS tem é que em 10 anos, se nada for feito, a gente vai voltar à medicina para antes do século, antes da década de 40, quando nós não tínhamos nenhum antibiótico.

