As imagens de um pai agredindo a própria filha, de apenas 3 anos, em Francisco Beltrão (PR), causaram revolta e indignação em todo o país nos últimos dias e culminaram na prisão do agressor. Mas isso só aconteceu porque um homem viu a cena e decidiu intervir.
Ao presenciar a agressão, um personal trainer questionou o pai e ouviu que “ele não devia se meter”.
Mas ele se meteu.
Após o ocorrido, ele procurou imagens de câmeras de segurança, encontrou o vídeo que mostrava o flagrante e denunciou o caso às autoridades.
Graças a divulgação das imagens, a mãe da menina, que era casada com o agressor, viu a cena e registrou um boletim de ocorrência. Ela disse à polícia que não imaginava que o marido fosse capaz de fazer aquilo e decidiu se separar. O pai foi preso.
Mas e se aquele homem não tivesse feito nada? As imagens não teriam viralizado e talvez a mãe não soubesse o que o pai era capaz de fazer.
A reação foi amplamente elogiada nas redes sociais. Mas, por mais surpreendente que pareça, ela está longe de representar o comportamento da maioria dos brasileiros.
Uma pesquisa feita inédita feita pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest, divulgada nesta terça-feira, mostra que 62% dos brasileiros afirmam que não interviriam ao presenciar uma criança levando palmadas ou puxões de orelha em um espaço público.
Desse total, 32% dizem que não fariam nada porque “cada um sabe da própria vida”, enquanto 30% afirmam que gostariam de agir, mas ficariam constrangidos de se envolver. Apenas 21% abordariam o responsável para pedir que parasse a agressão, e 15% chamariam a polícia ou tentariam mobilizar outras pessoas para proteger a criança.
Os números ajudam a explicar uma das principais conclusões do estudo: embora o discurso em defesa de uma educação sem violência esteja cada vez mais consolidado, a agressão contra crianças ainda permanece naturalizada na sociedade brasileira. O levantamento aponta que a violência continua presente tanto na forma como muitos brasileiros foram educados quanto nas práticas que ainda adotam na criação dos filhos.
A pesquisa revela, por exemplo, que 91% dos brasileiros defendem o diálogo como a melhor forma de educar uma criança. Ao mesmo tempo, 62% admitem já ter gritado com uma criança, 49% reconhecem já ter dado tapas e 27% afirmam já ter usado objetos para bater.
Apesar de os índices serem menores do que os registrados na primeira edição do levantamento, realizada em 2023, o paradoxo permanece: a violência é condenada no discurso, mas continua presente na prática.
Outro dado reforça a percepção de que o problema está longe de ser superado. Para 74% dos brasileiros, a violência contra crianças e adolescentes aumentou nos últimos anos, indicando que a maioria acredita que o país caminha na direção oposta à proteção da infância.
Para Márcia Kalvon, diretora executiva do Infinis, compreender essas contradições é essencial para romper o ciclo da violência.
“Ainda que tenhamos avançado em legislação e na conscientização sobre os direitos das crianças, a pesquisa mostra que ainda existe uma lacuna significativa entre aquilo que os brasileiros consideram correto e aquilo que acontece na prática.
Compreender essas percepções é fundamental para romper o ciclo intergeracional de violência e orientar políticas públicas de prevenção. Cada criança protegida hoje representa menos violência amanhã”, afirma.
O caso registrado no Paraná ilustra justamente o oposto do comportamento apontado pela pesquisa.
Enquanto a maioria dos entrevistados afirma que permaneceria em silêncio diante de uma agressão, a decisão de um único cidadão de questionar o agressor, buscar provas e denunciar o episódio fez com que uma cena de violência deixasse de ser apenas mais um caso invisível e se transformasse em investigação policial.
A pesquisa sugere que romper esse ciclo depende não apenas da responsabilização de quem agride, mas também da disposição da sociedade para deixar de tratar a violência contra crianças como um problema exclusivamente familiar e passar a enxergá-la como uma responsabilidade coletiva.

