Deixou de ser incomum no último ano a notícia de demissão em massa no Brasil. Presenciais e até mesmo por videochamada, elas vêm ocorrendo em empresas dos mais variados setores. Só em 2023, o fechamento de duas indústrias levou a dois desligamentos em massa no Ceará: 2 mil, no caso Guararapes; e 59 trabalhadores na Simples Passo, em Irauçuba.
Mas o fechamento de empresas não é a única causa para o inchaço da fila do desemprego no Brasil e no mundo. Desde meados de junho de 2022, várias startups nacionais e estrangeiras operam desligamentos coletivos, em geral com a mesma justificativa: a reestruturação do modelo de negócios.
Exemplo disso são as demissões em massa operadas em startups como a Favo, Quinto Andar e até em gigantes da tecnologia, como Twitter e Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp.
Em uma das tantas startups que recorreram aos desligamentos coletivos trabalhava o analista Bernardo Gomes. Ele atuava na área da Tecnologia da Informação voltada para gestão de ativos de energia e teve o seu desligamento anunciado por videochamada no dia 27 de janeiro. Bernardo trabalhava em home office e foi desligado juntamente com 10 trabalhadores.
“A justificativa foi que estavam extinguindo algumas áreas, incluindo a minha, por reestruturação e corte de gastos. Antes da demissão não havia indicativo de que eu seria desligado, pelo contrário, estava recebendo sinais muito positivos sobre meu trabalho. Dá uma sensação de insegurança e incapacidade. Eles ficavam fazendo mistério sobre essa reestruturação. Acho que houve falta de comunicação e de consideração”, lamenta Bernardo.
Para além da notícia difícil, ele explica que foi especialmente complicado o desligamento em um momento em que ele tinha acabado de se mudar. “Não tinha pagado nem o primeiro mês de aluguel. Fui demitido em 27 de janeiro e paguei o primeiro aluguel no dia 30 de janeiro, então foi na cúspide da mudança”.
MANUTENÇÃO DA LUCRATIVIDADE
O conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Ricardo Coimbra, também lembra que empresas do ramo de tecnologia cresceram muito durante a pandemia que sucedeu “um cenário não tão sólido de manutenção desse crescimento”.
“Houve uma elevação do consumo desses serviços vinculados a plataformas digitais. E aí a gente observa, com o fim da pandemia e com o retorno das atividades, uma reversão desse quadro com a necessidade de reestruturação dos projetos de médio e longo prazo de algumas empresas”
RICARDO COIMBRA
Conselheiro do Corecon-CE
Ele destaca que muitas dessas empresas precisam gerar retorno aos acionistas ou possuem ações negociadas em bolsa, o que potencializa a necessidade de reestruturação com o objetivo de manter a perspectiva de lucratividade. “Isso é algo que está acontecendo em empresas não só no Brasil, mas no mundo”.
TECNOLOGIA, PANDEMIA E POLÍTICA
O professor da Fundação Getúlio Vargas e pós-doutor Eduardo Maróstica observa o movimento de demissões em massa ligados a três fenômenos: tecnologia, pandemia e política e pondera que, no início de ano, é historicamente comum haver desligamentos.
“Tem a questão da automatização de processos, o que acaba levando as empresas a limpar seus quadros”, diz Maróstica. “Nós observamos que os Estados Unidos demitiram 193 mil pessoas
Em relação à pandemia, ele explica que as empresas, sobretudo startups, buscaram em dado momento aumentar a capilaridade e, com um novo ajuste do cenário após a liberação das atividades, determinados grupos de mão de obra se tornaram desnecessários.
O outro aspecto que ele observa é o impacto dos acontecimentos políticos no último ano. “A instabilidade política traz um cenário de conduta expectante para muitas empresas e isso ocorre em um ciclo de quatro anos. Acaba sendo natural”, diz.
COMPETITIVIDADE
Para ele, também cabe destacar a perda de competitividade, no caso das indústrias brasileiras, ante as empresas asiáticas. Ele reforça que os negócios que se furtam de investir em automação e redesign de produtos perdem competitividade e, assim, é mais provável que “continuem ocorrendo essas quebradeiras”.
“As empresas não quebram só por fazerem coisas erradas. Elas também quebram por fazerem as coisas certas por muito tempo”
EDUARDO MARÓSTICA
Pós-doutor e professor da FGV
Além disso, apesar das recentes notícias de demissões em massa e de fechamento de empresas, Maróstica acredita que as perspectivas são positivas, já que, assim como historicamente o início de ano é um período mais difícil em termos de mercado de trabalho, os últimos trimestres costumam ser mais positivo, com contratações.

