Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificaram a presença de bisfenol A (BPA), uma substância química associada a alterações hormonais, em papéis térmicos usados na impressão de recibos e comprovantes no Brasil. O estudo alerta que o composto pode ser transferido para a pele durante o manuseio desses materiais, principalmente em situações de contato frequente.
A análise foi realizada pelo Laboratório de Produtos e Tecnologia em Processos (LPT), do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da UFC, sob coordenação do professor Diego Lomonaco. O trabalho avaliou papéis térmicos utilizados em diferentes situações do cotidiano, como comprovantes de pagamentos com cartão, recibos de compras e senhas de atendimento.
O papel térmico funciona por meio de uma reação química provocada pelo calor. Ao contrário de folhas convencionais, ele não utiliza tinta para registrar informações. A impressão ocorre quando a impressora aquece determinadas áreas do papel, ativando compostos responsáveis pela mudança de cor.
O principal alerta apresentado pelo estudo envolve a exposição contínua ao material. De acordo com os pesquisadores, o BPA pode passar do papel para a pele durante o manuseio, especialmente quando as mãos estão úmidas ou quando há uso de produtos como álcool em gel e cremes.
A absorção preocupa principalmente profissionais que lidam diariamente com grandes quantidades de comprovantes, como trabalhadores de bancos, supermercados, farmácias e outros estabelecimentos comerciais. O professor Diego Lomonaco explica que, após entrar pela pele, o composto pode chegar à corrente sanguínea em sua forma ativa. Segundo ele, esse processo diferencia a exposição por contato de outras formas de entrada da substância no organismo.
Pesquisas anteriores realizadas no Brasil apontam que as concentrações de bisfenol A encontradas em papéis térmicos nacionais estão entre as mais elevadas observadas internacionalmente. Os níveis podem variar conforme o fabricante e o lote produzido.
Pesquisa da UFC aponta falta de regulamentação sobre papéis térmicos
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é a ausência de uma regulamentação específica no Brasil para controlar a composição química desses materiais. Segundo o estudo, fabricantes e fornecedores não possuem atualmente a obrigação de apresentar informações detalhadas sobre os componentes utilizados nos papéis térmicos.
Essa falta de padronização significa que empresas que compram grandes volumes de bobinas térmicas podem não ter informações completas sobre a composição dos produtos recebidos. A pesquisa realizada pelo laboratório da UFC foi solicitada por um escritório de advocacia que representa funcionários do setor bancário. A iniciativa ocorreu após relatos envolvendo trabalhadores expostos ao contato frequente com esses materiais.
PUBLICIDADE
Bisfenol A é considerado um desregulador hormonal
O bisfenol A é classificado como um desregulador endócrino, substância capaz de interferir no funcionamento do sistema hormonal. Estudos científicos relacionam a exposição ao BPA a possíveis impactos no sistema imunológico, alterações metabólicas, problemas reprodutivos e efeitos neurológicos.
Pesquisas também investigam associações entre o composto e determinados tipos de câncer, incluindo câncer de próstata e de mama. Além do BPA, outros bisfenóis, como o bisfenol S (BPS) e o bisfenol F, também são utilizados como alternativas em alguns produtos classificados como livres de BPA. Segundo o pesquisador, esses compostos também apresentam estudos que apontam possibilidade de interferência hormonal.
Os bisfenóis podem estar presentes ainda em outros materiais utilizados no cotidiano, como embalagens plásticas, revestimentos internos de latas de alimentos e alguns produtos odontológicos. A recomendação dos pesquisadores é que empresas que utilizam papéis térmicos busquem análises laboratoriais para conhecer a composição dos materiais adquiridos e ampliar a segurança de trabalhadores e consumidores.

