A cacique Pequena, liderança do povo Jenipapo-Kanindé, protagonizou um momento de cobrança pública durante a tradicional festa do Marco Vivo, realizada no último dia 9, no território indígena em Aquiraz.
Junto ao prefeito do município, Bruno Gonçalves (PSB), a líder cobrou a construção da estrada de acesso à aldeia, conhecida como Estrada de Trairussu, promessa feita por autoridades estaduais e municipais. O episódio ocorreu durante a celebração, que reúne a comunidade em um ato simbólico de reafirmação territorial e espiritualidade.
Em sua fala, a cacique destacou a necessidade de compromisso e ações concretas voltadas ao povo indígena, apontando frustração com promessas não cumpridas.
“Eu sou sua amiga do peito, mas é por outras formas. Não é para eu está na sua casa pedindo uma esmola não. Porque num é uma vez e nem duas que nós batemos na porta e vocês não olham para nós. Em todo canto do Aquiraz tem estrada feita. Porque você não olha para nós também?”, questionou a primeira cacique mulher do Brasil.
Demanda antiga
A demanda pela estrada é considerada histórica pela comunidade. A construção da via já havia sido prometida publicamente pelo prefeito de Aquiraz, Bruno Gonçalves, e pelo governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), em ocasião anterior, quando estiveram no território indígena, durante a inauguração da primeira areninha em território indígena.
O compromisso previa a melhoria do acesso à aldeia Jenipapo-Kanindé, considerada essencial para garantir mobilidade, escoamento da produção e acesso a serviços básicos. A cobrança feita pela cacique Pequena reforça a expectativa por prazos e execução efetiva da obra.
De acordo com a gestão municipal, a Prefeitura de Aquiraz reconhece que não possui os recursos necessários para custear a obra sozinha, o que motivou a busca por parcerias externas.
Prazo para as obras
O planejamento atual, que já está tecnicamente alinhado com a Superintendência de Obras Públicas (SOP), propõe um modelo de cofinanciamento no qual o município e o Governo do Estado dividiriam os custos da execução em partes iguais (50% para cada). Apesar do estágio avançado do projeto, ainda não foi estabelecido um prazo oficial para o início das intervenções.
Em nota, a Secretaria dos Povos Indígenas do Ceará reconheceu a legitimidade da reivindicação e informou que o projeto já foi aprovado pela Prefeitura de Aquiraz e está inserido no Monitoramento de Ações e Projetos Prioritários (MAPP) do Governo do Estado.
A Superintendência de Obras Públicas do Ceará (SOP) afirmou que o projeto se encontra em fase de estudo de viabilidade técnica e financeira. Segundo o órgão, essa etapa é necessária para definição do orçamento e captação de recursos para a execução da obra.
Festa do Marco Vivo e simbolismo
Realizada desde 1999, a festa do Marco Vivo é um dos principais eventos do povo Jenipapo-Kanindé. A celebração marca a luta pela delimitação do território indígena e ocorre anualmente.
Durante o ritual, membros da comunidade percorrem diferentes extremidades da terra indígena e fincam marcos feitos com o pau de Iburana, árvore considerada sagrada e símbolo de resistência e ancestralidade. A programação inclui cantos, danças, comidas típicas e o toré — ritual espiritual tradicional entre povos indígenas do Ceará.
O evento acontece nas Mangueiras do Tio Odorico, local considerado sagrado por ter sido ponto inicial da mobilização territorial da comunidade e espaço de fortalecimento cultural e espiritual.
Quem são os Jenipapo-Kanindé
O povo Jenipapo-Kanindé vive às margens da Lagoa Encantada, em Aquiraz (CE), em uma área de 1.734 hectares já demarcada. A subsistência da comunidade é baseada na agricultura, pesca, artesanato e em atividades formais e informais dentro e fora da aldeia.
A cultura do povo se expressa por meio de cantos, mitos, danças, rezas e lugares sagrados.
A aldeia é reconhecida por ter a primeira cacique mulher do Brasil, Maria de Lourdes da Conceição Alves (Cacique Pequena), natural da primeira capital do Ceará. Em 2010, devido à saúde debilitada, ela nomeou duas filhas como sucessoras: Juliana Alves (Cacique Irê) e Maria da Conceição (Cacique Jurema), estabelecendo o primeiro cacicado triplo feminino do Estado.

