Quem passa pela rua Capitão Mor, no Centro de Aquiraz,— municípiodistante cerca de 27 km da capital cearense — pode enxergar apenas uma antiga casa de portas e janelas de madeira, mas a construção de taipa guarda parte da história de um período em que a cidade era o centro jurídico e administrativo da Capitania do Ceará.
Conhecida popularmente como Casa do Capitão Mor, a edificação é, na verdade, identificada em registros históricos como Casa dos Ouvidores. Construída há cerca de 300 anos, é considerada pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (Coepa) a casa mais antiga de Aquiraz.https://d-42619612222188335604.ampproject.net/2607210106000/frame.html
O imóvel foi tombado pelo Estado do Ceará em 21 de março de 2006. Depois de anos de deterioração, passou por restauração em 2008 e foi reaberto em 2010. Em 2018, voltou a ser reinaugurado.
Em 2025, a Prefeitura de Aquiraz chegou a disponibilizar visitas mediante agendamento, acompanhadas por servidores da Secretaria de Cultura, mas hoje o local está fechado.
A importância do espaço, para o historiador Ronald Tavares, doutor em História pela Universidade de Brasília (UnB), não está apenas na preservação da casa isoladamente. Ele chama atenção também para as duas construções contíguas que integram o conjunto arquitetônico.
Para o professor municipal, Miguel Tafarel, a Casa é motivo de orgulho aos cidadãos aquirazenses e marca o momento em que Aquiraz se torna sede do Governo. “É algo muito marcante para o município, tanto que muitas pessoas se orgulham de falar isso. É citado até no hino de Aquiraz”.
Para além dos registros históricos, a aproximação entre patrimônio e educação pode ajudar a manter essa memória entre as novas gerações.
Miguel afirma que a Casa, por se tratar de uma construção histórica, serve como elemento de interdisciplinaridade e agrega várias habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aos estudantes.
A própria existência de uma construção de quase três séculos em meio à cidade atual cria uma possibilidade de aprendizado fora da sala de aula. “É importante trazer essa aproximação entre o estudante e o conhecimento. Aproximação que eu falo na prática, mostrar aquilo no dia a dia”, disse o professor.
Dentre as disciplinas que poderiam utilizar da construção como ponto de estudo, Miguel cita história, geografia, linguagens e até mesmo matemática. O risco, segundo o professor, não está apenas na deterioração física de um prédio antigo, mas também no afastamento da população de uma parte da própria história.
Relembrando seu período de escola e pensando sobre a importância do local aos alunos, o professor afirma que sente falta da expansão das visitas guiadas pelos pontos históricos do município.
Segundo ele, os alunos ainda vão aos locais — como o Museu Sacro ou a Casa, mesmo que ambos estejam fechados — mas as visitas tendem a ocorrer somente em fevereiro, em alusão ao aniversário do município, que ocorre no dia 13.
“Seria interessante que esse processo viesse a acontecer não só no mês de fevereiro, mas no decorrer do ano. Para que essa memória sobre o município de Aquiraz, a Casa do Capitão Mor e os demais pontos turísticos, não ficasse associada só ao mês de fevereiro”
A preservação, nesse sentido, envolve também fazer com que o patrimônio seja conhecido e utilizado pela comunidade.
Hoje, a antiga Casa dos Ouvidores permanece como um dos principais vestígios materiais do período colonial de Aquiraz. Suas paredes de taipa e estruturas de madeira atravessaram mudanças políticas, urbanas e sociais e chegaram ao presente carregando dúvidas que ainda são objeto de pesquisa.
É justamente essa combinação entre o que já se sabe e o que ainda precisa ser descoberto que faz da casa mais do que uma construção antiga: ela é um documento histórico que pode ser visto, percorrido e, quando aberta à população, experimentado.
Ao O POVO, a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) afirmou que, apesar de o prédio ter sido tombado pelo Estado em 2006, a manutenção do local é feita pelo município de Aquiraz.
O POVO entrou em contato com a Prefeitura de Aquiraz ao longo de toda a semana, mas a gestão não respondeu aos questionamentos sobre qual a real situação do imóvel e se há projetos de restauração e reabertura para o local.
O papel de Aquiraz no Ceará
Para o historiador Ronald Tavares, doutor em História pela Universidade de Brasília (UnB), o imóvel é um dos raros exemplares, que ainda permanecem de pé, das casas construídas em Aquiraz durante o século XVIII.
“Ela é praticamente uma testemunha de taipa amarrada com couro de boi de um período decisivo da nossa história colonial”, afirma o historiador.
Segundo Ronald, a importância da construção está diretamente relacionada ao papel que Aquiraz desempenhou no Ceará.
A partir de 1723, com a criação da Ouvidoria, a vila passou a concentrar o ouvidor-geral e uma estrutura ligada à Justiça, formada por escrivães, meirinhos, alcaides e outros agentes.
“Quando olhamos para ela, estamos olhando para os últimos vestígios físicos de uma época em que a vila concentrava o poder da Justiça régia”, explica Ronald.
Aquiraz no centro do poder do Ceará
Durante parte do período colonial, Aquiraz ocupou uma posição diferente daquela que tem hoje. A vila era o principal centro jurídico-administrativo da capitania, ainda que não tivesse a mesma importância comercial de outras localidades.
De acordo com Ronald, a criação da Ouvidoria fez com que a cidade recebesse uma estrutura administrativa que não existia em outras povoações cearenses naquele momento.
O historiador explica que o ouvidor geral era acompanhado por um aparato formado por oficiais e outros profissionais ligados à Justiça.
Quando o representante da Coroa precisava percorrer o interior da capitania, o deslocamento podia envolver uma grande comitiva. A casa está inserida nesse contexto histórico, mas a própria identidade do imóvel ainda guarda uma questão que não está totalmente esclarecida.
Capitão Mor ou Ouvidores?
Embora seja conhecida atualmente como Casa do Capitão Mor, registros históricos apontam que a construção teria sido originalmente ligada aos ouvidores que atuavam na Capitania.
Ronald trabalha com a hipótese de que o imóvel tenha sido construído por volta de 1728 pelo primeiro ouvidor-geral do Ceará, José Mendes Machado. Segundo sua pesquisa, a casa teria servido como residência dos ouvidores até 1816, quando a sede da comarca foi transferida para Fortaleza.
Depois disso, o prédio pode ter passado às mãos de Leandro da Costa do Vale, apontado pelo pesquisador como o último capitão mor de Aquiraz.
É justamente essa possível mudança de uso que, na avaliação do historiador, pode ajudar a explicar a existência dos dois nomes.
“Essa sobreposição de usos explicaria por que a casa acabou ‘herdando’ os dois nomes na memória popular”, afirma Ronald.
O pesquisador, no entanto, faz uma ressalva. Existe uma tradição oral antiga em Aquiraz que atribui a construção a um personagem chamado Manoel, Capitão Mor. Para Ronald, essa informação ainda precisa ser confrontada com novas fontes históricas.
Uma casa que também conta como se vivia
Além da história política, a própria construção funciona como um registro do modo de vida de aproximadamente três séculos atrás.
A casa foi construída em taipa, com estrutura de madeira amarrada por tiras de couro bovino.
O madeiramento utiliza espécies como pau-d’arco, carnaúba e aroeira. Há portas de cedro, piso em tijoleira, ferragens em ferro batido e portais e soleiras em pau-d’arco.
A planta retangular reúne duas salas, três quartos, cozinha, depósito, circulação e varanda. Um dos elementos mais curiosos é uma porta de dupla função: ao mesmo tempo em que fecha um dos quartos, pode funcionar como acesso para a sala.
Para Ronald, a disposição dos espaços pode indicar usos diferentes da residência. Uma das possibilidades levantadas pelo pesquisador é que um dos cômodos tenha sido utilizado para audiências realizadas pelo ouvidor.
O alpendre também guarda uma relação com o período em que a casa foi construída.
Segundo o historiador, sua presença não seria apenas uma escolha estética, mas estaria relacionada tanto ao clima quanto às normas urbanísticas daquele período.

