O Vaticano anunciou a excomunhão de bispos, padres e fiéis ligados formalmente à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) após a realização de ordenações episcopais sem autorização do Papa Leão XIV. Para a Santa Sé, a cerimônia representou um delito de cisma — caracterizado pela ruptura formal da comunhão com a Igreja Católica — e motivou a aplicação das sanções previstas pelo direito canônico.
A decisão foi publicada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé por meio de um decreto acompanhado de uma nota explicativa sobre as sagrações episcopais realizadas em Ecône, na Suíça. Nos documentos, o prefeito do órgão, cardeal Víctor Manuel Fernández, afirma que as consagrações ocorreram sem mandato pontifício e em desacordo com a autoridade do Sumo Pontífice.
Segundo a Santa Sé, a realização das ordenações tornou necessária a declaração formal do cisma, encerrando mais uma etapa das tentativas de reconciliação entre Roma e o movimento tradicionalista fundado por Marcel Lefebvre.
Por que o Vaticano declarou a excomunhão
As ordenações episcopais aconteceram em Ecône mesmo após um apelo direto do papa Leão XIV para que a cerimônia fosse cancelada.
Em carta enviada à Fraternidade São Pio X, o pontífice advertiu que “rasgar a túnica sem costura de Cristo é um pecado de extrema gravidade”. Apesar do pedido, a cerimônia foi mantida.
Para o Vaticano, a consagração de novos bispos sem autorização pontifícia configura um ato de desobediência grave e uma ruptura explícita da comunhão com a Igreja, situação enquadrada como delito de cisma pelo direito canônico.
Quem foi atingido pela decisão
O decreto determina a excomunhão de Dom Alfonso de Galarreta, responsável pelas ordenações, dos quatro novos bispos — Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier —, além de Dom Bernard Fellay, apontado como participante direto da celebração e aderente ao ato considerado cismático.
A pena aplicada é a chamada excomunhão latae sententiae, prevista automaticamente para determinadas infrações previstas no Código de Direito Canônico.
Além dos religiosos diretamente envolvidos, a Santa Sé afirmou que todos os ministros ordenados pertencentes à Fraternidade São Pio X passam a ser considerados em situação de cisma. Da mesma forma, os fiéis leigos que aderirem formalmente ao movimento também devem ser considerados cismáticos e excomungados.
Sacramentos celebrados pela fraternidade passam a ser considerados ilícitos
Outro ponto destacado pelo Vaticano diz respeito aos sacramentos administrados pelos ministros da FSSPX.
Segundo a nota divulgada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, os sacerdotes da fraternidade exercem seus ministérios de forma ilícita. Além disso, os sacramentos da penitência e do matrimônio celebrados pelo grupo passam a ser considerados inválidos pela Igreja Católica.
O documento afirma ainda que diversas iniciativas para restabelecer a plena comunhão entre Roma e a Fraternidade São Pio X foram realizadas ao longo dos últimos anos, mas não produziram resultados. As novas ordenações, segundo o Vaticano, agravaram definitivamente a situação.
Ao final da nota, a Santa Sé reafirma que permanece aberta ao retorno daqueles que desejarem restabelecer a comunhão com a Igreja Católica e orienta os fiéis a permanecerem unidos ao papa e aos bispos em comunhão com Roma, evitando participar de celebrações e atividades promovidas pela fraternidade.
Cerimônia reuniu milhares de participantes
As ordenações ocorreram na quarta-feira (1º), em Ecône, na Suíça, e reuniram aproximadamente 15 mil participantes, entre famílias e fiéis de diferentes países.
Durante a celebração, o superior-geral da Fraternidade São Pio X, padre Davide Pagliarani, classificou o momento como “histórico” e afirmou que o movimento considera permanecer fiel à fé católica, apesar da oposição do Vaticano.
Antes da cerimônia, a Santa Sé já havia advertido que qualquer ordenação episcopal realizada sem consentimento do papa seria interpretada como uma ruptura formal da comunhão e resultaria em nova excomunhão.
Movimento nasceu em reação ao Concílio Vaticano II
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X foi fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, em oposição às reformas promovidas pelo Concílio Vaticano II.
Entre as principais mudanças rejeitadas pelo movimento estão a celebração da missa na língua local, a possibilidade de o sacerdote celebrar voltado para os fiéis e a ampliação do diálogo da Igreja Católica com outras religiões.
Até hoje, a fraternidade mantém práticas litúrgicas anteriores ao concílio, como a celebração das missas em latim e com o padre voltado para o altar. O grupo também mantém críticas ao ecumenismo, ao diálogo inter-religioso e a outras mudanças implementadas pela Igreja nas últimas décadas.
Relação entre Vaticano e FSSPX atravessa décadas de tensão
O impasse entre Roma e a Fraternidade São Pio X não é recente.
Em 1988, Marcel Lefebvre foi excomungado após ordenar quatro bispos sem autorização do então papa João Paulo II, episódio considerado uma das maiores rupturas na Igreja Católica desde o fim do século XIX.
Desde então, o movimento não havia realizado novas ordenações episcopais até a cerimônia realizada nesta semana em Ecône.
Segundo informações divulgadas pela própria fraternidade, atualmente a FSSPX possui 1.482 membros formais, entre eles 733 padres e 264 seminaristas, distribuídos em cerca de 50 países. O movimento afirma reunir aproximadamente 600 mil seguidores em todo o mundo.
No Brasil, a Fraternidade São Pio X mantém quatro priorados e 21 capelas. De acordo com os dados apresentados pelo próprio grupo, sua presença no país cresceu nas últimas duas décadas, acompanhando o fortalecimento de correntes conservadoras entre parte dos católicos brasileiros.

