A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pela Presidência da República gera impactos no futuro da oposição do Ceará, principalmente aos aliados diretos que encabeçaram a campanha bolsonarista. É nesse sentido que os próximos passos do grupo ainda levantam dúvidas, no cálculo que envolve a possibilidade de novas estratégias e a ascensão de lideranças, como o deputado federal André Fernandes (PL).
O senador perdeu a disputa de 2º turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no domingo (25). Na primeira manifestação após o resultado, Flávio não reconheceu a derrota e prometeu pedir a anulação do pleito.
A nível estadual, o governador Elmano de Freitas (PT) foi reeleito ainda no 1º turno, em 4 de outubro. O petista conseguiu derrotar Ciro Gomes (PSDB), que se aliou ao PL na tentativa de retomar o posto de gestor estadual.
Com a dupla derrota em termos de Executivo, a ala opositora se mobiliza a partir do desempenho no Legislativo, espacialmente pelo recorde alcançado por André Fernandes na reeleição como deputado federal, e também em torno da frente ampla construída em prol de Ciro Gomes.
Por outro lado, o futuro do próprio Ciro ainda é uma incógnita, tanto no aspecto da vida pública quanto no papel como líder do grupo. O tucano optou por não manifestar apoio a nenhum candidato na disputa presidencial, mesmo diante da aliança com o PL no Ceará, o que gerou desgastes com uma ala do bolsonarismo.
Professora da Universidade de Fortaleza (Unifor) e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mariana Dionísio de Andrade avalia que a projeção é que André Fernandes tente se consolidar como a principal liderança da direita no estado, sobretudo porque os resultados mostram sua força como oposição.
“Ele (André Fernandes) tem votos, estrutura partidária e a presidência estadual do PL, o que o deixa em posição de destaque e conforto. Com Lula reeleito e o PT forte no estado, a oposição tende a endurecer o discurso nacional e cobrar o governo, mas terá de decidir se aposta no confronto ideológico ou numa agenda local menos nacionalizada. E embora o antipetismo exista, o PT e seus aliados dominam a máquina estadual e municipal e têm ampla vantagem no interior”Mariana Dionísio
Professora da Unifor e doutora em Ciência Política pela UFPE
ANDRÉ VAI BUSCAR PREFEITURA

Legenda: Ciro Gomes não se manifestou a favor de Flávio Bolsonaro, mas construiu aliança com André e Alcides Fernandes no Ceará.
Foto: Thiago Gadelha/SVM.
A sinalização mais concreta sobre o futuro do grupo até aqui partiu de André Fernandes. O parlamentar já se posiciona como pré-candidato a prefeito de Fortaleza, cargo para o qual não foi eleito em 2024, após receber 49,6% dos votos no segundo turno.
Inclusive, nomes da oposição já endossam a empreitada pela eleição de André em 2028 como a próxima missão do grupo. Nos bastidores, aliados dele indicam, ainda, que o acordo entre PL e o PSDB no Ceará envolve o apoio de Ciro a André na corrida pelo Paço Municipal.
Considerado o nome da oposição que mais ganhou força no pleito eleitoral, André se colocou como principal articulador dos atos a favor de Flávio Bolsonaro no Ceará, por meio do “Bloco do 22” em vários municípios.
Como presidente do PL Ceará, André Fernandes também teve papel evidenciado como líder nas articulações que colocaram o partido dentro da chapa de Ciro, emplacando a candidatura do pai dele, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL), ao Senado.
Professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres observa que a concentração de votos de André Fernandes na Região Metropolitana de Fortaleza mostram a consolidação de um movimento de “realinhamento eleitoral” em prol da direita considerada mais radical, que se repete em outras grandes capitais do país.
“Apesar da derrota, eu vejo, na verdade, um fortalecimento do Fernandes que deve chegar na eleição de 2028 em Fortaleza um nome fortíssimo, inclusive como alguém com capacidade e que se credencia para esse lugar de liderança, de liderar o campo da oposição, de liderar a direita ultrarradical, que engole a direita pragmática, mas que também, a meu ver, tem conseguido uma penetração na periferia que talvez os outros não tenham conseguido até agora”Monalisa Torres
Professora de Teoria Política da Uece
OPOSIÇÃO NO LEGISLATIVO
Mesmo diante da derrota de Flávio, o PL Ceará conseguiu expandir suas bancadas tanto na Câmara dos Deputados quanto na Assembleia Legislativa (Alece). A legenda elegeu quatro parlamentares federais e seis estaduais.
Além disso, André Fernandes conseguiu emplacar dois deputados estaduais do seu grupo de aliados diretos: Abreu Júnior (PL) e Tancredo dos Santos (PL), que foi líder de votos na disputa pela Assembleia. Bela Carmelo (PL), Dra. Silvana (PL), Dra. Mayra Pinheiro (PL) e Pastor Frota (PL) completam a bancada estadual da legenda.
Com o resultado para a Alece, o PL passa a concentrar influência como o principal partido da oposição ao Governo Elmano de Freitas (PT). O PSDB de Ciro Gomes, o outro partido da ala opositora na Casa, contará apenas com três parlamentares.
A ala opositora da Alece carrega o peso das principais articulações em torno da candidatura de Ciro, a partir do “Café da Oposição”. Contudo, com a derrota eleitoral da ampla maioria do grupo — seis dos atuais sete parlamentares tucanos não conseguiram a reeleição —, os novos representantes são cautelosos sobre o futuro dos encontros semanais, embora reforcem a união contra o PT no Ceará.
Mariana Dionísio qualifica que as cadeiras no Parlamento significam mais tempo de tribuna e mais fiscalização do governo estadual, além de maior acesso a recursos. Mesmo diante da reeleição de Elmano de Freitas e de um Legislativo dominado por PSB e PT, a oposição ganha, então, “palco” para um projeto de médio prazo.
“Uma bancada maior cria uma rede de lideranças, assessores e candidaturas competitivas para 2028. É nessa estrutura que se constroem as chapas de vereador e os nomes que puxam voto nos bairros de Fortaleza, o que ajuda André Fernandes a transformar capital pessoal em máquina partidária”, avalia a professora.
O FUTURO DE ROBERTO E WAGNER

Legenda: Capitão Wagner e Roberto Cláudio são alguns dos nomes da chapa de Ciro que declararam apoio a Flávio Bolsonaro.
Foto: Fabiane de Paula/SVM.
Roberto Cláudio (União) e Capitão Wagner (União) não conseguiram lograr êxito em suas empreitadas eleitorais de 2026: o primeiro disputou o cargo de vice-governador pela chapa de Ciro, enquanto o segundo buscava uma das vagas ao Senado.
Em paralelo, ambos vinham fortalecendo a relação com o bolsonarismo no Ceará, até mesmo antes de Ciro. Roberto Cláudio apoiou André Fernandes no 2º turno da disputa pela Prefeitura de Fortaleza e chegou a ter um encontro com Jair Bolsonaro, durante visita do ex-presidente à Capital, em maio de 2025.
Já Capitão Wagner nutre relações com o clã bolsonarista desde 2018, quando foi eleito como deputado federal e apoiou Jair Bolsonaro para a Presidência. Neste ano, o político manteve certo distanciamento da campanha federal, mas declarou apoio a Flávio na largada do 2º turno.
Mariana Dionísio entende que o crescimento do PL coloca Roberto Cláudio e Capitão Wagner em posição subordinada, passando de protagonistas a aliados de André, o qual ela classifica como um “líder que não faz muita questão da união com outros partidos”.
“O cenário mais provável, é que ambos continuem relevantes como articuladores e cabos eleitorais, mas dificilmente como candidatos principais em Fortaleza. Para voltar ao jogo majoritário, cada um precisaria reconstruir uma imagem própria, longe da sombra de Fernandes e longe da associação direta com Flávio. O que ainda os mantém no tabuleiro é que a oposição, sem eles, perde acesso a segmentos de centro-direita que o PL puro não alcança”Mariana Dionísio
Professora da Unifor e doutora em Ciência Política pela UFPE
Para Monalisa Torres, o futuro de Roberto e Capitão podem ser analisados a partir do movimento de “realinhamento eleitoral”, que acaba fazendo nomes da oposição se unirem a André Fernandes como forma de nutrir o capital político.
“Esses nomes que eram mais pragmáticos, que estavam se posicionando à direita, eles acabaram sendo engolidos. E se você olhar a própria votação do Fernandes comparada a outras lideranças da direita no Ceará, eles também perderam espaço para o André Fernandes”, pontua a professora de Teoria Política da Uece.
PRISCILA COSTA FORA DO MANDATO

Legenda: Priscila Costa se coloca como aliada de Waldemar Costa Neto e Michelle Bolsonaro no Ceará.
Foto: Beto Barata/PL.
A deputada federal Priscila Costa (PL) não conseguiu a reeleição, após registrar 47,4 mil votos no pleito de 4 de outubro. Entretanto, a parlamentar ganhou projeção nacional na pré-candidatura ao Senado e como aliada direta de Michele Bolsonaro (PL), eleita senadora pelo Distrito Federal
A parlamentar cearense foi, inclusive, motivadora de uma das desavenças públicas entre Michelle e Flávio. Enquanto a ex-primeira-dama criticava a aliança do PL com Ciro Gomes e defendia Priscila como candidata a senadora, o filho mais velho de Jair Bolsonaro endossava o acordo costurado por André no Ceará, o que incluía apenas Alcides como postulante.
Em paralelo, Priscila ficará sem mandato a partir de 2027. A política renunciou ao cargo de vereadora de Fortaleza para assumir como deputada federal, após a Justiça Eleitoral determinar a retotalização de votos, que resultou na perda do mandato de Dayanny Bittencourt, esposa de Capitão Wagner.
Diante da posição fora do Legislativo, o futuro de Priscila é incerto. Os resultados mostram que outras lideranças evangélicas e conservadoras perderam votos ou não foram eleitas, também nesse movimento de ampliação da base do André Fernandes.
Priscila conseguiu emplacar o esposo, Pastor Frota (PL), como deputado estadual. Mas ele ficou na última vaga do partido, que tem uma bancada com votações expressivas dos aliados de André.
“Não é nem a bancada do PL, é a bancada do André, como se dentro do partido, você tem aí uma dimensão personalizada que agrega e que tem ligação direta com essa liderança personalizada que tem se consagrado no André Fernandes”Monalisa Torres
Professora de Teoria Política da Uece
Já Mariana Dionísio entende que a visibilidade de Priscila vinha mais da disputa política do que de um capital eleitoral consolidado. Além disso, o pleito eleitoral confirmou o fortalecimento de André e do PL no Ceará, diminuindo o argumento de que o partido precisava dela para crescer.
“O mais provável é a permanência no PL em posição negociada, porque sem mandato, ela perde a tribuna, mas pode manter relevância como quadro nacional ligado ao PL Mulher e a Michelle, e como nome para uma disputa municipal em 2028, como vereadora, onde ainda tem voto comprovado”, aponta a especialista.

